Entre Chá e Neblina – Capítulo 5

o retorno à vila da neve

Entre Chá e Neblina

A neblina desce devagar sobre a vila no fim da tarde, dissolvendo contornos e tornando tudo menos definido. Helena Frost entra na pequena casa de chá quase por instinto. O sino da porta anuncia sua presença com um som suave, antigo, como se tivesse sido afinado para não perturbar memórias sensíveis.

O interior é aquecido por um fogão baixo e por um aroma de ervas secas que se mistura ao cheiro de madeira úmida. Poucas mesas estão ocupadas. O lugar sempre foi assim, discreto, feito para conversas que não precisam ser ouvidas por todos. Helena escolhe um canto próximo à janela embaçada e envolve as mãos na xícara antes mesmo de o chá esfriar.

Do lado de fora, a vila se perde na névoa. As ruas desaparecem e reaparecem conforme o vento muda de direção. Helena observa em silêncio, sentindo algo semelhante a uma pausa. Não uma pausa tranquila, mas necessária.

A porta se abre novamente. O som do sino corta o ar morno. Ela reconhece a presença antes de virar o rosto. Elias Morven permanece próximo à entrada por um instante, retirando a neve do casaco, como se precisasse de tempo para decidir se aquele encontro era acaso ou consequência.

Ele a vê. Não demonstra surpresa. Apenas caminha até a mesa com passos contidos, respeitando a fragilidade do momento.
— Ainda vem aqui — diz, em tom baixo, quase cuidadoso.

— Sempre gostei do chá de pinheiro — responde Helena. — Ele lembra que o inverno também pode aquecer.

Elias se senta à frente dela. A neblina do lado de fora torna o mundo distante, como se a vila tivesse sido suspensa apenas para aquele encontro. Entre eles, a mesa pequena parece insuficiente para tudo o que ficou por dizer.

Eles falam de coisas simples. Do frio que chegou mais cedo naquele ano. Da casa azul que insiste em resistir. Do tempo que passa diferente quando se fica e quando se vai. As palavras fluem sem pressa, como se tivessem aprendido a esperar uma pela outra.

Por um instante, Helena vê refletida na xícara uma versão antiga de si mesma. Não a que partiu, mas a que hesitou. Elias também parece notar algo semelhante. Seus olhos se suavizam, carregando uma melancolia que não pesa, apenas lembra.

A história entre eles nunca terminou de fato. Foi interrompida, deixada em suspenso, como a neblina que envolve a vila naquela tarde. E, enquanto o chá esfria lentamente, Helena Frost entende que alguns encontros não acontecem por acaso.

A neblina lá fora se adensa. Dentro, algo começa, discretamente, a se mover outra vez.

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