Cartas Sob a Porta – Capítulo 6

o retorno à vila da neve

Cartas Sob a Porta

A noite cai cedo na vila de neve. Helena Frost acende apenas uma luz, suficiente para afastar a escuridão sem espantá-la por completo. O silêncio da casa onde está hospedada se espalha pelos cômodos como um visitante antigo, daqueles que não pedem licença porque já estiveram ali antes.

É o som quase imperceptível junto à porta que a faz levantar. Um roçar leve, seguido de um toque seco, breve. Quando abre, o corredor está vazio. Apenas a neblina rasteira e o frio avançando lentamente. No chão, repousa um envelope amarelado, dobrado com cuidado, como se tivesse sido colocado ali com a mesma delicadeza de um pedido.

Helena fecha a porta e segura a carta por alguns segundos antes de abri-la. Reconhece a caligrafia de imediato. As letras firmes, ligeiramente inclinadas, carregam um ritmo que ela nunca esqueceu. Elias Morven sempre escreveu como quem fala pouco, mas sente demais.

Ela se senta à mesa e desliza o papel para fora do envelope. As palavras parecem ganhar peso assim que são expostas à luz.

Não é uma carta recente. A data no canto superior confirma o que ela já suspeitava. Foi escrita anos atrás, na estação seguinte à sua partida. As frases não acusam, não imploram. Apenas existem. Falam de dias vazios, de uma casa que continuou azul, de uma ausência que nunca encontrou substituto. Falam de amor sem dramatização, mas com uma honestidade que fere mais do que qualquer excesso.

Helena sente o peito apertar à medida que lê. Há outras cartas dentro do envelope. Algumas nunca enviadas. Outras claramente devolvidas pelo tempo. Cada uma guarda um fragmento de uma história que não soube se despedir.

Ela percebe então que o amor deles não se perdeu. Foi apenas arquivado em palavras que não encontraram destino. Cartas que esperaram pacientemente sob portas, em gavetas, em anos inteiros de silêncio.

Quando termina de ler, Helena permanece imóvel. Não há lágrimas. Apenas uma compreensão tardia. O que foi interrompido nunca deixou de existir. Apenas aguardou o momento em que ambos fossem capazes de encarar o que ficou escrito.

Do lado de fora, o vento passa entre as casas, carregando ecos antigos. Helena Frost dobra as cartas com cuidado e as segura junto ao peito. Pela primeira vez desde que voltou, ela entende que algumas palavras não chegam atrasadas.

Elas chegam quando já não podem mais ser ignoradas.

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