A Primeira Nevasca – Capítulo 8

o retorno à vila da neve

A Primeira Nevasca

A manhã amanhece sob um céu pesado, espesso, como se a vila inteira estivesse prestes a ser coberta por um mesmo pensamento. Helena Frost percebe os primeiros flocos ainda na janela. Grandes, lentos, silenciosos. A primeira nevasca verdadeira do ano começa sem anúncio, apagando cores e contornos com uma paciência antiga.

Ela sai para a rua envolta em um casaco espesso. O frio é mais intenso do que nos dias anteriores, mas não hostil. Há algo quase solene no ar, como se a vila estivesse sendo reiniciada. Os passos deixam marcas que logo desaparecem, engolidas pelo branco crescente.

Elias Morven a encontra perto da praça central. Não foi combinado. Ainda assim, o encontro parece inevitável. Eles param a poucos centímetros um do outro, enquanto a neve cai entre e sobre eles, acumulando-se nos ombros, nos cabelos, nos silêncios.

Por um instante, nenhum dos dois fala. O mundo se reduz àquele espaço curto, ao som abafado da nevasca. Helena sente o frio alcançar os dedos, mesmo protegidos pelas luvas. Elias percebe antes que ela diga qualquer coisa.

Ele estende a mão com um gesto simples, quase hesitante. Não há pressa. Apenas a oferta. Helena observa por um segundo que parece longo demais. Então aceita.

O toque acontece sem impacto, sem urgência. Ainda assim, algo cede. A pele reconhece o que a memória guardou. O frio não desaparece, mas perde a rigidez. A mão dele é firme, quente, real. Não é promessa. É presença.

Elias não aperta. Apenas mantém. Helena sente o próprio corpo reagir de forma sutil, como se partes esquecidas despertassem. Ela percebe que não é o toque em si que importa, mas tudo o que ele carrega. Anos de ausência, de cuidado à distância, de amor que aprendeu a esperar.

A neve cai mais forte, envolvendo-os quase por completo. O resto da vila se dissolve em branco. Eles caminham juntos por alguns passos, ainda de mãos dadas, sem direção definida. Não precisam.

Quando finalmente soltam, não há constrangimento. Apenas um entendimento silencioso. O gelo entre eles não se quebrou de uma vez. Ele se dissolveu, camada por camada, exatamente como precisava.

Helena Frost ergue o rosto e deixa os flocos tocarem sua pele. Pela primeira vez desde que voltou, ela não sente vontade de se proteger do frio.

A primeira nevasca não cobre apenas a vila.

Ela inaugura um recomeço.

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