O Dia em que o Inverno Sorriu – Capítulo 10

o retorno à vila da neve

O Dia em que o Inverno Sorriu

O dia amanhece claro, apesar do frio intenso. A neve reflete a luz com suavidade, como se a vila tivesse sido redesenhada durante a noite. Helena Frost percebe algo diferente ao abrir a porta. Não é o cenário. É o modo como ela o recebe.

Elias Morven a espera do lado de fora, encostado no corrimão de madeira. O rosto carrega uma serenidade rara, aquela que surge quando o peso do passado deixa de pressionar o presente. Ele não diz nada. Apenas oferece companhia.

Eles começam a caminhar sem destino fixo. A vila se estende à frente, silenciosa e branca, mas já não parece hostil. As marcas dos passos surgem lado a lado, paralelas, desaparecendo lentamente atrás deles. Não importa. O que fica é o movimento conjunto.

A neve cai leve, quase gentil. Não há vento forte, nem pressa. Helena sente o próprio ritmo se ajustar ao dele com naturalidade, como se sempre tivesse sido assim. As mãos se tocam de vez em quando, sem intenção explícita, mas sem recuo. O corpo reconhece a proximidade como algo permitido.

Eles passam pela praça central, pelo caminho que leva ao bosque, pela casa de chá ainda fechada. Cada lugar carrega memórias, mas nenhuma pesa demais. O passado acompanha, mas não conduz.

Em determinado momento, Elias diminui o passo. Helena faz o mesmo. Eles param diante de um campo aberto, onde a neve permanece intacta. O silêncio ali não oprime. Acolhe.

Helena inspira fundo. O ar gelado entra sem ferir. Elias olha para ela e sorri. Não é um sorriso largo. É contido, verdadeiro, quase incrédulo. O inverno, por um instante, parece menos severo.

Eles seguem caminhando, agora mais próximos, os ombros quase se tocando. Não precisam dizer o que estão construindo. O gesto simples basta.

Helena Frost entende, enquanto avança sob a neve ao lado dele, que o inverno não precisa terminar para deixar de ser cruel.

Às vezes, ele apenas aprende a sorrir.

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