Vestígios de um Adeus – Capítulo 11

o retorno à vila da neve

Vestígios de um Adeus

A lembrança não chega de uma vez. Ela se insinua.

Helena Frost a sente enquanto organiza um pequeno baú esquecido no quarto onde dorme. O objeto estava sob a cama, coberto por poeira fina e tempo acumulado. Não é dela. Nunca foi. Ainda assim, algo a chama para abri-lo, como se o passado tivesse aprendido novas formas de bater à porta.

Dentro, há poucos itens. Um cachecol antigo, endurecido pelo frio de outros invernos. Um livro com páginas marcadas. E, por fim, um envelope dobrado mais de uma vez, o papel já fragilizado. Helena reconhece a caligrafia antes mesmo de tocar.

Não é de Elias.

O coração dela desacelera de maneira estranha, como se o corpo tentasse se proteger do impacto. Ela se senta e abre a carta com cuidado. As palavras pertencem a um tempo anterior à fuga, a um dia que ela tentou apagar por completo.

A carta fala de partida. Não da dela, mas de outra. De alguém que decidiu ir embora para que ela pudesse ficar. Um sacrifício silencioso, feito sem despedida adequada, sem explicações completas. A leitura faz com que Helena compreenda algo que nunca ousou enxergar por inteiro.

Ela não foi a única a partir.

Quando termina, dobra a carta novamente e permanece imóvel. O passado acaba de se reorganizar dentro dela, mudando pesos, redistribuindo culpas. A lembrança ameaça não apenas sua paz, mas o delicado equilíbrio que construiu com Elias.

Mais tarde, ao encontrá-lo perto da casa azul, Helena percebe a distância antes mesmo que ela se manifeste em palavras. Elias nota o silêncio dela, o olhar que evita, o gesto contido das mãos.

— Aconteceu alguma coisa, diz ele, com firmeza tranquila.

Helena hesita. Sabe que aquele vestígio de adeus não é apenas memória. É uma linha que pode separá-los novamente, se atravessada sem cuidado.

— Eu encontrei algo, responde. Algo que muda o que eu achava que sabia.

Elias não reage de imediato. O rosto se fecha levemente, não por desconfiança, mas por reconhecimento. Como se soubesse que aquele momento chegaria.

O vento atravessa a rua vazia, levantando pequenos redemoinhos de neve. A vila parece mais distante, como se estivesse se preparando para assistir.

Helena entende, com uma clareza dolorosa, que amar não é apenas permanecer quando tudo se encaixa. É decidir ficar quando uma lembrança antiga ameaça desfazer o chão.

Os vestígios de um adeus não pedem passagem.

Eles exigem escolha.

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