O Quarto Que Guarda a Ausência

O Guardanapo da Primeira Confissão

O Quarto Que Guarda a Ausência

À noite, o quarto de Robledo se transforma em um território onde o silêncio tem peso. A luz é baixa, quase sempre indireta, suficiente apenas para desenhar contornos suaves nas paredes. Não há nada fora do lugar. Cada objeto parece escolhido para não distrair, para não interromper o fluxo constante de pensamentos que encontram ali um abrigo.

Vera Lúcia nunca esteve fisicamente naquele espaço. Ainda assim, tudo nela parece presente. Não como lembrança concreta, mas como sensação persistente. O travesseiro guarda perguntas. A cadeira próxima à janela sustenta pausas longas. O ar carrega frases que não chegaram a ser pronunciadas.

Robledo se senta à beira da cama e fecha os olhos por alguns instantes. O dia ficou para trás, mas ela não. À noite, a mente não se ocupa do que precisa ser feito, apenas do que precisa ser sentido. Ele pensa em Vera Lúcia com a mesma frequência com que respira, sem esforço, sem alarde. Não há ansiedade. Há constância.

As orações surgem quase sem forma. Não são pedidos diretos, nem súplicas. São pensamentos silenciosos lançados ao escuro, como quem confia que alguém escuta mesmo sem resposta imediata. O nome dela aparece nessas preces de maneira natural, integrado ao ritmo do coração.

Sobre a mesa, um caderno permanece aberto. As páginas recebem palavras que não exigem destino. Robledo escreve para organizar o que sente, não para ser lido. Ainda assim, cada frase carrega a esperança discreta de que, em algum ponto do tempo, Vera Lúcia reconheça ali algo que também é dela.

A ausência não dói como antes. Ela se acomodou. Tornou-se presença constante, quase cuidadosa. Não ocupa espaço com violência. Apenas permanece. O quarto aprendeu a conviver com isso, assim como Robledo.

Quando a luz se apaga por completo, ele se deita e encara o escuro. Não está sozinho. A ausência faz companhia. E, naquela quietude noturna, ele entende que amar também é aprender a dividir o silêncio com quem não está, mas nunca deixou de existir.

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