A Casa Sem Rosto – Capítulo 14

o retorno à vila da neve

A Casa Sem Rosto

A casa fica afastada da vila, quase engolida pela neve e pelo tempo. Não há cor definida nas paredes. O que um dia foi pintura agora é apenas desgaste. Helena Frost se aproxima com cautela, sentindo que aquele lugar nunca pertenceu inteiramente ao presente.

As janelas estão opacas, como olhos que se recusam a reconhecer quem retorna. Não há marcas recentes de passos ao redor. Ainda assim, a casa parece habitada por algo que nunca partiu. Um acúmulo de silêncios, de palavras engolidas, de escolhas que não encontraram reparo.

Helena empurra a porta com esforço. O rangido ecoa pelo interior vazio, ampliado pela ausência de móveis e de vida. As paredes nuas carregam marcas irregulares, sombras de quadros que foram retirados, sinais de pregos antigos. Cada espaço sugere uma história interrompida.

Ela caminha devagar, deixando que o frio atravesse o casaco. O ar ali é pesado, não pela umidade, mas pelo que não foi resolvido. Helena percebe vozes sem som. Não são lembranças claras. São fragmentos de pedidos nunca feitos, de desculpas adiadas, de verdades que chegaram tarde demais.

Em um dos quartos, ela para. O chão cede levemente sob seus pés. A luz que entra pela janela desenha formas instáveis na parede. Helena fecha os olhos e respira fundo. Sente uma presença difusa, não ameaçadora, apenas cansada.

As paredes pedem perdão. Não em palavras, mas em insistência. Como se o próprio espaço quisesse se redimir por ter abrigado dor em silêncio. Helena entende que algumas casas perdem o rosto porque absorvem demais o que acontece dentro delas.

Ela apoia a mão na parede fria e permanece ali por alguns segundos. Não busca respostas completas. Busca encerramento. O perdão que aquelas vozes imploram não é apenas para o passado. É também para quem sobreviveu a ele.

Ao sair, Helena Frost não olha para trás. A casa sem rosto permanece onde sempre esteve, guardando o que não pode mais ferir.

Alguns lugares existem apenas para ensinar que o perdão também pode ser silencioso.

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