O Último Inverno – Capítulo 17

o retorno à vila da neve

O Último Inverno

O céu amanhece branco de um modo definitivo, sem gradações, sem promessas de abertura. A vila parece menor sob aquela luz uniforme, como se estivesse sendo lentamente recolhida pelo próprio inverno. Helena Frost observa pela janela e compreende antes de aceitar. Há despedidas que não pedem permissão.

A neve cai com constância, não com fúria. É uma queda paciente, quase respeitosa. Cada floco encontra seu lugar sem pressa. Helena veste o casaco em silêncio. Não há urgência. Apenas necessidade.

Elias Morven a espera do lado de fora. O rosto dele carrega uma serenidade difícil, aquela que nasce quando se sabe que algo termina, mas não se rompe. Eles se encaram por um instante longo, reconhecendo o peso daquele dia sem nomeá-lo.

Caminham juntos até o limite da vila, onde o caminho se estreita e a paisagem se abre. O bosque permanece à distância. A casa sem rosto já não se vê. O lago dorme sob o gelo. Tudo parece suspenso em uma mesma respiração branca.

Helena para primeiro. Elias respeita o gesto. Não há dramatização. Apenas verdade.

Ela olha para ele com atenção, como se quisesse guardar cada detalhe em um lugar que não se apaga. Elias faz o mesmo. O inverno não precisa ser cruel para ser definitivo. Às vezes, ele apenas cumpre.

A despedida não vem em palavras longas. Vem em proximidade. Em um abraço contido, firme, silencioso. Helena sente o calor dele por um instante que parece fora do tempo. Elias fecha os olhos, como quem memoriza.

Quando se afastam, não há distância real. Apenas direção diferente.

A neve continua caindo. O céu permanece branco. A vila atrás deles se dissolve na névoa fria. Helena Frost dá um passo para frente. Elias permanece onde está. Não por fraqueza, mas por escolha.

O último inverno não é o fim do que foi vivido. É o encerramento do que precisava ser fechado.

Eles se olham uma última vez. Não há promessa. Não há dívida. Apenas reconhecimento.

E, sob o céu branco, cada um segue.

O inverno permanece. Mas já não aprisiona.

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