Quando o Frio se Desfaz – Capítulo 18

o retorno à vila da neve

Quando o Frio se Desfaz

O frio não vai embora de uma vez. Ele cede. Aos poucos. Como se tivesse aprendido a respeitar o tempo das coisas. Helena Frost percebe isso na primeira manhã em que a neve parece menos pesada, menos definitiva. O ar ainda corta, mas já não fere. Há um brilho novo na superfície branca, um indício de mudança.

Ela caminha pela vila com passos lentos, observando detalhes que antes passavam despercebidos. Gotas finas escorrem dos beirais. O gelo nas janelas começa a se quebrar em linhas irregulares. O degelo se anuncia sem alarde, como quem retorna depois de longa ausência.

As memórias fazem o mesmo.

Não invadem. Deslizam.

Helena sente imagens antigas emergirem com suavidade inesperada. Não são as cenas duras, nem os instantes que exigiam defesa. São risos pequenos, gestos simples, momentos que não pareciam importantes quando aconteceram, mas que agora carregam uma ternura intacta. O passado deixa de ser ameaça e passa a ser paisagem.

Ela se detém perto da praça central. O sino da igreja permanece imóvel, mas o som dele ecoa na lembrança. O dia em que correu ali sem medo. A tarde em que se escondeu da neve rindo. A noite em que acreditou que tudo poderia permanecer.

As memórias retornam como degelo. Não quebram. Não ferem. Apenas revelam o que estava escondido sob camadas de proteção.

Helena fecha os olhos por um instante e respira. O ar entra diferente. Menos pesado. Mais amplo. Ela percebe que não precisa mais se defender do que foi. O passado não quer retomada. Quer espaço. Quer ser integrado, não combatido.

O lago, à distância, começa a mostrar áreas escuras entre o branco. A água reaparece. A vida se insinua. Nada abrupto. Nada teatral. Apenas continuidade.

Helena Frost segue caminhando, sentindo que algo dentro dela também cede. As rigidezes se soltam. As culpas se reorganizam. As saudades deixam de doer e passam a acompanhar.

Quando o frio se desfaz, não é o fim do inverno.

É o início da compreensão.

E, pela primeira vez desde que voltou, Helena não sente vontade de fugir nem de ficar.

Ela apenas está.

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