A Casa que Escuta – Capítulo 1

Série – A Casa das Vozes. Suspense psicológico e mistério sobre segredos enterrados em uma antiga casa de família

A Casa que Escuta

Série – A Casa das Vozes
Suspense psicológico e mistério sobre segredos enterrados em uma antiga casa de família

A casa surge ao final da estrada de terra como uma presença que não pede permissão. Não é grande. Não é pequena. É antiga. A pintura descascada revela camadas de tempo, como se cada geração tivesse tentado cobrir o que veio antes sem nunca conseguir apagar por completo.

Clara para o carro a alguns metros. O motor silencia. O vento assume.

Ela observa por alguns segundos, sentindo uma resistência que não sabe nomear. Não é medo claro. É reconhecimento. A sensação incômoda de estar sendo esperada.

A porta principal permanece fechada, mas a casa não parece vazia. As janelas escuras não refletem apenas o céu. Elas guardam. A madeira range de leve, mesmo sem toque. Um som interno, como se alguém mudasse de posição lá dentro.

Clara engole em seco e avança. Cada passo é absorvido pela terra fofa, abafado, quase respeitoso. O silêncio ao redor não é natural. Ele se organiza. Ele observa.

Quando toca na maçaneta, sente o frio atravessar a pele. A porta cede com facilidade excessiva, como se já estivesse destrancada há muito tempo. O interior a recebe com um ar denso, carregado de pó, madeira antiga e algo mais difícil de identificar. Um odor de presença.

A luz entra por frestas altas, desenhando faixas irregulares no chão. O corredor é estreito. As paredes guardam marcas de quadros retirados, sombras onde algo existiu. Clara tem a impressão de ouvir passos, mas o som não se repete. Apenas permanece na sensação.

Ela avança mais alguns metros e para.

Um sussurro atravessa o ar.

Não é palavra clara. Não é ruído externo. É interno. Um som baixo, próximo, como se tivesse sido pensado e não dito. Clara fecha os olhos por um instante, tentando organizar a respiração. O coração acelera sem motivo objetivo. O corpo reage antes da mente.

Ela abre os olhos.

Nada mudou. Tudo mudou.

A casa parece mais próxima. As paredes mais estreitas. O teto mais baixo. A impressão é de que o espaço se ajustou à presença dela. Como se tivesse reconhecido quem entrou.

Clara dá mais um passo. O assoalho responde com um estalo seco. O som ecoa longe demais para um espaço tão pequeno. Ela percebe então que não está ouvindo apenas com os ouvidos. Está ouvindo por dentro.

A casa não fala. Ela devolve.

Devolve pensamentos. Devolve imagens que não são dela. Devolve sensações que não pediu.

Clara entende, com uma clareza inquietante, que aquela não é apenas uma casa antiga de família. É um lugar onde algo foi guardado sem consentimento. Onde vozes foram empurradas para dentro das paredes. Onde segredos aprenderam a sobreviver.

Ela não recua.

Ainda.

Mas sabe, com uma certeza desconfortável, que a casa já começou a se mover dentro dela.

E não pretende ficar em silêncio.

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