Ecos no Corredor – Capítulo 2

Série – A Casa das Vozes. Suspense psicológico e mistério sobre segredos enterrados em uma antiga casa de família

Ecos no Corredor

Às três da manhã, a casa sempre respirava diferente.

Não era o silêncio absoluto que incomodava, mas o modo como ele parecia atento. Como se escutasse de volta. As paredes antigas, manchadas pelo tempo, rangiam em intervalos irregulares, e o corredor central se transformava em um túnel de expectativas. Era ali que os sons nasciam.

No início, Clara pensou que fosse o vento. Depois, os canos. Em seguida, o próprio cansaço. Mas nenhuma explicação resistia quando os passos surgiam, lentos, ritmados, sempre no mesmo ponto do corredor, sempre à mesma hora.

Ela se sentava na cama, coberta até o peito, prendendo a respiração. O som vinha como arrasto de pés, tecido roçando parede, algo que parecia procurar o caminho no escuro. Não havia pressa nos passos. Havia intenção.

A porta do quarto permanecia fechada, mas Clara jurava sentir a presença do outro lado. Não um corpo, mas algo mais denso, como se o ar tivesse peso. O corredor, que durante o dia parecia apenas estreito e antigo, à noite se tornava longo demais, profundo demais, vivo demais.

Na terceira noite, ela criou coragem.

Abriu a porta devagar, apenas o suficiente para espiar. O corredor estava vazio, mergulhado em sombras e na luz pálida que vinha da janela do fundo. Nenhum movimento. Nenhuma forma. Apenas o eco que ainda vibrava nas paredes, como se o som tivesse deixado uma marca.

Mesmo assim, Clara não se sentiu sozinha.

Havia algo ali. Não visível, não explicável. Uma presença que não precisava de corpo para existir. O ar estava frio, denso, carregado de uma expectativa antiga, como se a casa aguardasse que alguém finalmente escutasse.

Ela fechou a porta sem fazer ruído e voltou para a cama, o coração acelerado, os pensamentos em desordem. Tentou rezar, mas as palavras não se alinhavam. Tentou dormir, mas o corredor continuava dentro dela.

Às três da manhã, a casa não dormia.

E agora, Clara tinha certeza de que não era a única acordada.

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