O Guardanapo Que Vira Mensagem – Capítulo 14

O Guardanapo da Primeira Confissão

O Guardanapo Que Vira Mensagem

Guardei aquele guardanapo por muito tempo. Amarelado pelo tempo, dobrado com cuidado excessivo, como se o papel pudesse se desfazer e levar junto o que nele foi escrito. Era simples. Poucas palavras. Mas nelas cabia tudo o que eu ainda não sabia dizer direito quando escrevi pela primeira vez.

Numa noite calma, reencontro o guardanapo. Leio devagar, como quem relê a própria origem. As palavras ainda fazem sentido. Talvez façam ainda mais agora. Então entendo que chegou o momento de transformá-las.

Abro a conversa com Vera Lúcia e digito exatamente o que estava ali, sem acrescentar, sem corrigir. Apenas transcrevo.

Escrevo que o amor verdadeiro não pede proximidade para existir. Que há pessoas que chegam antes do toque e ficam mesmo sem presença. Que algumas almas se reconhecem à distância e permanecem por escolha, não por circunstância.

Envio.

Do outro lado, ela lê. Não apressada. Não como quem passa os olhos. Ela sente o peso delicado daquelas palavras. Reconhece nelas algo que também vive dentro dela. Não é surpresa. É confirmação.

Ao ler, Vera Lúcia não sorri por fora. Ela aquieta por dentro. Sente uma calma funda, dessas que não precisam de resposta imediata. As palavras não exigem retorno. Elas apenas se instalam.

Quando finalmente responde, não comenta cada frase. Não analisa. Apenas diz que sentiu. E isso basta.

O guardanapo deixou de ser papel.

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