A Canção que Acalma – 176

Reino de Veramor nova capa

A Canção que Acalma

A Rainha sentou-se ao lado do leito quando a casa já respirava em ritmo lento. O Rei repousava com os olhos fechados, o corpo entregue a um descanso que vinha carregado de confiança. Ela começou a cantar em voz baixa, quase um sussurro moldado em melodia. Não havia intenção de performance, apenas a necessidade profunda de cuidar através do som. Cada nota era colocada com delicadeza, como quem ajeita um cobertor invisível sobre a alma de quem ama.

Ícaro percebeu o início da canção antes mesmo que ela se completasse. Aproximou-se em silêncio e respondeu com pequenas notas claras, suaves, respeitosas. Seu canto não competia, acompanhava. Era como se o ar aprendesse uma nova forma de se mover, conduzido por essa conversa delicada entre a voz humana e o sopro das penas. A música não enchia o ambiente, ela o envolvia.

Perto da lareira, Lórien dormia profundamente. O calor do fogo refletia em seu pelo e o movimento calmo da respiração mostrava que ali não havia vigilância, apenas confiança plena. Bravus, deitado um pouco mais adiante, mantinha os olhos semicerrados, atento o suficiente para sentir, tranquilo o bastante para descansar. A presença dos dois sustentava o espaço com uma proteção silenciosa e firme.

Nilo enroscou-se junto à manta que cobria o Rei. Seu corpo pequeno encontrou ali um ponto exato de aconchego, e o ronronar surgiu naturalmente, misturando-se à canção da Rainha e às notas de Ícaro. Luzia observava tudo do alto de uma poltrona, imóvel, os olhos atentos, como se guardasse aquela cena na memória do mundo. Nada escapava ao seu olhar calmo e consciente.

A música seguia sem pressa, como se não tivesse começo nem fim. A Rainha cantava não para acordar, nem para embalar apenas o sono, mas para alinhar o que estava desalinhado por dentro. O Rei, mesmo adormecido, parecia responder. Sua respiração tornou-se mais profunda, mais solta, como se reconhecesse no som a linguagem antiga do cuidado.

Naquele instante, o amor deixou de ser apenas sentimento e tornou-se harmonia. Era voz, era canto, era fogo que aquece sem queimar. Era o silêncio preenchido de sentido entre uma nota e outra. A casa inteira escutava. E enquanto a canção seguia, tudo se mantinha em equilíbrio, como se o mundo tivesse decidido descansar junto com eles.

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