A Ciência Entra na Sala – Capítulo 6

O Homem que Dizia Não Pertencer Aqui. Ele estava sentado no banco frio da rodoviária, como se aguardasse algo

A Ciência Entra na Sala

Hoje, pela primeira vez desde que Elias chegou, alguém tentou enquadrá-lo dentro de um método.

O nome dele é Dr. Augusto Lacerda.

Psiquiatra. Experiente, respeitado, conhecido por sua precisão clínica e pela forma como conduz casos considerados complexos. Sua presença mudou imediatamente o ambiente. Onde antes havia silêncio e observação, agora há análise.

Ele entrou na sala com um olhar atento, quase cirúrgico.

Não houve hostilidade.
Mas também não houve abertura.

Elias, por outro lado, o recebeu como recebe tudo: com serenidade.

— Elias — disse o doutor, sentando-se à sua frente — vou fazer algumas perguntas. Preciso entender melhor como você percebe a realidade.

Elias assentiu levemente.

— Pode perguntar.

O tom era calmo, sem resistência.

O médico começou com o básico.

Nome, idade, origem.

Elias respondeu tudo com clareza, sem hesitar. Mas quando chegou à origem, manteve a mesma resposta de sempre.

— Orionis.

Dr. Augusto anotou.

Nenhuma reação visível.

— Você acredita que veio de outro planeta? — perguntou, de forma direta.

Elias inclinou a cabeça.

— Eu não acredito. Eu sei.

O silêncio que se seguiu foi breve, mas denso.

O médico não confrontou imediatamente. Preferiu contornar.

— E como você chegou até aqui?

— Não da forma que vocês imaginam.

— Pode explicar?

Elias sorriu levemente.

— Ainda não.

Observei o doutor naquele momento. Ele não parecia irritado. Parecia… interessado.

Mas não como alguém fascinado.

Como alguém que busca inconsistências.

A sessão seguiu com perguntas sobre memória, percepção, tempo, identidade. Testes sutis, alguns quase imperceptíveis para quem não conhece o método.

Elias respondeu a tudo.

Com calma.
Com lógica.
Sem contradições evidentes.

Em determinado momento, Dr. Augusto fez uma pausa mais longa. Cruzou as mãos, analisando-o em silêncio.

— Elias — disse então — você apresenta um discurso estruturado, coerente… mas baseado em uma premissa que não corresponde à realidade conhecida.

Elias o observou com atenção.

— Realidade conhecida por quem?

O doutor sustentou o olhar.

— Pela ciência.

Elias assentiu, como se compreendesse perfeitamente aquela resposta.

— A ciência de vocês descreve muito bem o que consegue observar — disse ele. — Mas ainda está aprendendo a reconhecer o que não consegue medir.

Anotei essa frase com cuidado.

Pela primeira vez, percebi algo diferente no comportamento do Dr. Augusto.

Não foi dúvida.

Foi… pausa.

A sessão terminou pouco depois.

O doutor recolheu suas anotações e se levantou com a mesma postura firme com que entrou.

Mas havia algo diferente em seu olhar.

Talvez fosse apenas curiosidade profissional.

Ou talvez fosse o início de algo mais difícil de admitir:

a possibilidade de que, desta vez, a ciência não tenha entrado na sala para explicar —

mas para ser questionada. 🌌

Continua

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