A Janela que Nunca se Fecha – Capítulo 9

Série – A Casa das Vozes. Suspense psicológico e mistério sobre segredos enterrados em uma antiga casa de família

A Janela que Nunca se Fecha

A janela do quarto do fundo nunca permanecia fechada.

Clara tentara várias vezes. Empurrava a madeira antiga até ouvir o encaixe seco, girava o trinco com firmeza e ainda assim, horas depois, encontrava a janela aberta, como se alguém a tivesse destrancado com paciência. Não havia marcas. Nenhum sinal de arrombamento. Apenas o vidro exposto ao frio constante da noite.

O vento entrava sempre do mesmo jeito.

Não era uma corrente forte. Era um sopro contínuo, persistente, que fazia as cortinas se moverem lentamente, como se respirassem. O som não lembrava o assobio comum do ar atravessando frestas. Era mais baixo, mais ritmado, quase articulado.

Naquela noite, Clara parou diante da janela aberta e ouviu com atenção.

Entre o roçar do vento e o farfalhar das árvores, surgiam fragmentos de som. Não palavras completas, mas sílabas dispersas, memórias de vozes que pareciam procurar forma. Clara sentiu um aperto no peito, uma familiaridade incômoda, como se reconhecesse aquele tom sem conseguir identificar a origem.

Ela se aproximou.

O frio tocou seu rosto com delicadeza excessiva. Não era agressivo. Era íntimo. Clara apoiou as mãos no parapeito e fechou os olhos por um instante. Imagens vieram sem aviso. Um riso distante. Um nome quase esquecido. Uma promessa dita em voz baixa, perto demais do ouvido.

Quando abriu os olhos, a paisagem do lado de fora parecia diferente.

As árvores se curvavam levemente, embora não houvesse vento visível. A neve antiga refletia a luz da lua de forma irregular, criando sombras que se moviam mesmo quando nada mais se movia. Clara teve a impressão de que o quintal se estendia além do que conhecia, como se a casa estivesse projetando lembranças sobre o espaço real.

O sussurro se tornou mais claro.

Não chamava por ela. Não implorava. Apenas recordava. Era uma voz cansada, presa ao hábito de repetir o que não foi ouvido no tempo certo. Clara sentiu os olhos arderem, sem saber exatamente por quê.

Ela tentou fechar a janela outra vez.

Desta vez, o trinco resistiu. A madeira rangeu, como se reclamasse. O vento aumentou subitamente, empurrando o vidro de volta com firmeza, sem violência, mas com decisão. Clara recuou, assustada, o coração acelerado.

A janela não queria ser fechada.

Ela não era uma falha da casa. Era uma abertura necessária. Um ponto por onde o passado ainda conseguia entrar, noite após noite, trazendo consigo fragmentos de tudo o que fora deixado para trás.

Clara sentou-se na beira da cama, envolta pelo frio, ouvindo os sussurros se dissiparem lentamente. Sabia que, ao amanhecer, a janela estaria novamente aberta, como sempre estivera.

Algumas lembranças não aceitam o esquecimento.

Elas precisam de espaço.

E aquela janela existia para isso.

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