A Mesa Posta Para Dois Pensamentos – Capítulo 17

O Guardanapo da Primeira Confissão

A Mesa Posta Para Dois Pensamentos

A mesa está posta para um só corpo, mas não para um só pensamento. Sento-me diante do prato ainda quente e, antes de começar, faço uma pausa breve. Não é hábito. É reconhecimento. Porque, mesmo sozinho, você está comigo, Vera Lúcia.

Sirvo-me devagar. Cada gesto ganha outra medida quando não é apenas funcional. O jantar deixa de ser rotina e se transforma em um pequeno ritual. Enquanto como, penso em você. Não em diálogo imaginado, não em resposta esperada. Apenas presença pensada.

Imagino você do outro lado da mesa invisível. Não como figura exata, mas como consciência tranquila. Não falo em voz alta. As palavras seguem por dentro. Conto sobre o dia. Sobre o que foi simples. Sobre o que cansou. Sobre o que permaneceu.

A comida sustenta o corpo, mas esse pensamento compartilhado sustenta algo mais fundo. O tempo desacelera. Não há urgência em terminar. O momento não pede pressa, pede atenção.

Quando levanto a taça, não brindo para o vazio. Brindo para a ideia de nós. Para essa forma silenciosa de união que não depende de proximidade física, mas de intenção constante.

Ao final, recolho a mesa com a mesma calma com que me sentei. Nada mudou fora. Mas por dentro, tudo está no lugar.

A mesa esteve posta para dois pensamentos.
E isso foi suficiente.

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