A Mulher da Escada – Capítulo 6

Série – A Casa das Vozes. Suspense psicológico e mistério sobre segredos enterrados em uma antiga casa de família

A Mulher da Escada

A primeira vez, Clara achou que fosse cansaço.

Era tarde, o relógio marcava alguns minutos depois da meia-noite, e a casa estava mergulhada naquele silêncio denso que parecia crescer à medida que as luzes se apagavam. Clara descia a escada com cuidado, evitando o degrau que sempre rangia, quando sentiu a presença antes mesmo de ver.

Alguém estava ali.

No meio da escada, entre o segundo e o terceiro lance, havia uma mulher parada. Não bloqueava o caminho. Não se movia. Apenas estava. O vestido escuro se confundia com a sombra das paredes, e o cabelo longo caía à frente do rosto, ocultando traços que Clara não conseguia distinguir.

O ar ficou frio demais para ser apenas imaginação.

Clara piscou. A figura não desapareceu. Continuava ali, silenciosa, ocupando o espaço com uma naturalidade perturbadora, como se sempre tivesse pertencido àquele lugar. O tempo pareceu desacelerar. O coração de Clara batia alto demais, ecoando dentro do peito.

Quando a mulher levantou lentamente a cabeça, Clara deu um passo para trás.

O rosto não era estranho. Também não era familiar. Era algo entre os dois, um conjunto de traços que se recusavam a se fixar na memória. Os olhos, no entanto, eram claros demais, refletindo uma luz que não vinha de lugar algum.

Clara fechou os olhos por um instante. Quando abriu, a escada estava vazia.

O silêncio retornou, mas algo havia mudado. A casa parecia mais próxima, mais consciente. Clara permaneceu imóvel por longos segundos, tentando convencer a si mesma de que não havia visto nada além de um reflexo, uma sombra mal interpretada.

Na noite seguinte, a mulher voltou.

Desta vez, estava no alto da escada, observando o corredor dos quartos. Não havia surpresa. Apenas uma sensação estranha de reconhecimento, como se aquele encontro estivesse atrasado. Clara tentou chamar alguém, mas a voz não saiu. A garganta parecia apertada, inútil.

A mulher inclinou levemente a cabeça, num gesto quase curioso.

Sempre que Clara piscava, a figura mudava sutilmente de posição. Nunca se aproximava. Nunca se afastava. Apenas marcava presença, como um lembrete persistente de algo que não podia mais ser ignorado.

Clara começou a prestar atenção aos detalhes. A barra do vestido parecia antiga, costurada à mão. Os pés não tocavam completamente os degraus. Havia um intervalo mínimo entre o corpo e a madeira, como se a escada não a sustentasse de fato.

Ela tentou contar a alguém. Comentou com um primo, mencionou de forma vaga a sensação de não estar sozinha. As respostas foram sempre as mesmas. Cansaço. Estresse. A casa antiga prega peças.

Mas ninguém mais via a mulher.

Ninguém sentia o frio repentino. Ninguém acordava com a certeza de ter sido observado da escada durante a madrugada.

Na terceira noite, Clara encontrou algo novo.

Um lenço escuro repousava sobre o corrimão, dobrado com cuidado. Tinha o mesmo tecido do vestido da mulher. Ao tocá-lo, Clara sentiu um arrepio atravessar-lhe o corpo inteiro.

Não era uma alucinação.

A mulher da escada não estava tentando assustá-la.

Estava tentando ser vista.

E, de algum modo, lembrada.

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