A Música do Entardecer – Capítulo 186

Reino de Veramor nova capa

A Música do Entardecer

O entardecer entrou pela sala em tom de ouro antigo, filtrado pelas cortinas leves que se moviam com a respiração do vento. A música suave começou baixa, quase tímida, como se pedisse permissão para existir. O Rei estendeu a mão, e a Rainha aceitou com um sorriso que já conhecia o passo. Não havia pressa. Eles dançaram devagar, em círculos pequenos, como quem protege um segredo.

O corpo dele ainda carregava marcas do cansaço, e o dela conhecia cada uma. O ritmo se ajustou naturalmente. Não era coreografia, era escuta. Ele conduzia com cuidado. Ela seguia com confiança. A proximidade não pedia palavras. Bastava o toque, o encaixe, a respiração alinhada. O mundo se reduziu àquele espaço entre um passo e outro.

Ícaro observava do alto, quieto, as penas levemente eriçadas pela emoção que não sabia nomear. Seus olhos acompanhavam o movimento dos dois, e em certo momento ele soltou uma nota baixa, única, como se abençoasse a cena. O som se misturou à música e desapareceu, deixando no ar apenas a sensação de algo completo.

Nilo dormia sobre o piano, o corpo enroscado em perfeita harmonia com a madeira morna. O ronronar surgia e desaparecia conforme o sonho o levava, como se ele também dançasse por dentro. Lórien sonhava aos pés do casal, estendido com tranquilidade, as patas relaxadas, o focinho apoiado no chão. Seu peito subia e descia em ritmo calmo, acompanhando a cadência da música e do amor.

Bravus permanecia um pouco mais afastado, deitado com a cabeça erguida, atento e sereno, guardando o espaço como sempre. Luzia observava de cima de uma estante, imóvel, os olhos atentos e doces, registrando cada detalhe como quem entende a importância do instante. Todos estavam ali, cada um à sua maneira, compondo a cena com presença silenciosa.

A música seguiu sem interrupções. O Rei encostou a testa na da Rainha por um breve momento, e ela fechou os olhos. Não era apenas dança. Era gratidão em movimento. Gratidão pela vida que resistiu, pelo amor que permaneceu, pelo corpo que voltou a confiar, pela alma que não desistiu.

Quando a música terminou, eles não se afastaram de imediato. Permaneceram ali, abraçados, respirando juntos, como se o silêncio também fizesse parte da canção. O entardecer já se despedia, e a noite se aproximava com suavidade. Naquele instante simples, sem plateia e sem anúncio, a plenitude se fez presente. E todos sentiram. Porque há momentos em que a vida não precisa provar nada. Ela apenas é.

brasão reino de veramor

Posts Relacionados