A Serenidade que Não Combinava – Capítulo 2

O Homem que Dizia Não Pertencer Aqui. Ele estava sentado no banco frio da rodoviária, como se aguardasse algo

A Serenidade que Não Combinava

Há algo em Elias que desorganiza o ambiente sem que ele faça absolutamente nada.

Hoje o hospital estava agitado. Vozes alteradas nos corredores, um paciente em crise, televisores ligados transmitindo mais uma sequência de tragédias como se o mundo competisse por quem grita mais alto. O ar parecia pesado, saturado de tensão invisível.

Elias estava sentado no mesmo banco de ontem.

Coluna ereta.
Respiração lenta.
Olhar presente.

Não havia nele aquele tipo de calma ensaiada, típica de quem tenta parecer equilibrado. Não era postura. Era estado.

Uma enfermeira deixou cair uma bandeja de metal próxima a ele. O estrondo ecoou pelo corredor. Alguns se assustaram. Outros reclamaram. Elias apenas voltou os olhos para o som e, por um breve instante, pareceu observar não o barulho, mas o impacto emocional que ele causava nos outros.

Como se estudasse ondas.

Perguntei se ele não se sentia incomodado com a agitação.

Ele respondeu:

— O ambiente é agitado. Eu não preciso ser.

Disse isso sem desafio, sem superioridade. Como quem afirma que a chuva está caindo.

Mais tarde, um dos internos começou a provocá-lo, chamando-o de farsante, dizendo que ninguém vem de estrelas. Elias escutou até o fim. Não rebateu. Não ironizou. Não desviou o olhar.

Quando o homem terminou, Elias apenas perguntou:

— Você se sente melhor depois de dizer isso?

A pergunta não tinha sarcasmo. Era genuína.

O provocador hesitou. E naquele segundo de silêncio, algo mudou na sala. Não houve vitória. Não houve derrota. Houve suspensão.

É essa suspensão que me desconcerta.

Vivemos em um mundo onde todos reagem. Onde responder é quase um reflexo. Onde o ego é acionado ao menor toque. Elias parece operar fora desse sistema.

Ele não absorve o ruído.

É como se houvesse um espaço interno intacto dentro dele. Um território onde o caos não entra sem permissão.

Em determinado momento, sentei-me ao seu lado e perguntei:

— Você nunca perde a calma?

Ele pensou antes de responder.

— Perder a calma é esquecer que você não é o que está acontecendo.

Essa frase ficou comigo o resto do dia.

Talvez a serenidade dele não seja ausência de emoção. Talvez seja consciência de algo maior que a emoção.

E talvez, Vera, o que mais incomode não seja a possibilidade de ele vir de outro lugar.

Mas a possibilidade de que nós poderíamos viver assim…
e simplesmente não escolhemos.

— Continua.

Posts Relacionados