Ícaro e o Eco da Eternidade – Capítulo 192

Reino de Veramor nova capa

Ícaro e o Eco da Eternidade

Ícaro estava quieto demais naquela manhã. Empoleirado no alto do arco de madeira, observava o salão como quem revisita um lugar sagrado. A luz entrava suave, tocando suas penas, e o castelo respirava um silêncio antigo, cheio de memória.

De repente, a voz surgiu.

Não era um canto comum. Era palavra.

Ícaro repetiu, com a doçura imperfeita de quem guarda o essencial, uma frase que o Rei conhecia bem. Uma frase dita anos atrás, num tempo de promessas sussurradas e mãos entrelaçadas. O som ecoou pelo salão como um fio invisível puxado do passado.

O Rei interrompeu o que fazia. Seu peito se apertou não de dor, mas de reconhecimento. Aquela voz não vinha apenas do pássaro. Vinha da vida que haviam vivido.

Ícaro continuou. Uma palavra de afeto. Depois outra. Fragmentos de amor que haviam sido ditos sem a intenção de durar, mas que permaneceram. A Rainha levou a mão ao coração. Seus olhos brilharam com a surpresa serena de quem percebe que nada se perde quando é verdadeiro.

O pássaro não compreendia o peso do que dizia. Ainda assim, dizia. Como se o tempo tivesse escolhido nele um guardião improvável. Como se as vozes do casal tivessem encontrado asas.

O Rei sentiu então algo se acomodar dentro de si. O amor não terminaria com o silêncio dos corpos. Ele aprendera a ecoar. Aprendera a repetir-se em outras bocas, em outros ritmos, em outras formas.

Ícaro cantou de novo. Agora misturando palavra e melodia. O passado e o presente se tocaram por um instante perfeito.

E naquele som, simples e eterno, o amor encontrou um jeito de continuar.

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