O Áudio Que Ele Escuta – Capítulo 3

O Guardanapo da Primeira Confissão

O Áudio Que Ele Escuta Mais de Uma Vez

O telefone vibra de forma discreta, como se soubesse que o que carrega não pode ser interrompido por pressa. Vejo o seu nome na tela, Vera Lúcia, e, por um instante, não faço nada. Não por hesitação, mas por respeito. Há mensagens que pedem silêncio antes de serem abertas.

Quando aperto o play, sua voz ocupa o espaço ao meu redor com uma naturalidade que desmonta qualquer noção de distância. Não é apenas som. É presença. É você atravessando quilômetros para estar aqui, neste instante exato.

Você fala com calma. Sem esforço. Como quem não precisa provar nada. E eu escuto até o fim sem mover um músculo, como se qualquer gesto pudesse quebrar o fio invisível que nos une naquele momento.

Não respondo.

Aperto o play outra vez.

Na segunda vez, percebo nuances que não ouvi antes. Uma pausa breve. Uma respiração entre as frases. Um sorriso que não vejo, mas reconheço. Sua voz carrega mais do que palavras, carrega intenção, cuidado, saudade contida.

Ouço uma terceira vez.

Agora, sua voz não vem mais do telefone. Ela se espalha pela memória, pelo peito, pelo silêncio do quarto. É como se você estivesse sentada do outro lado da mesa invisível que sempre nos separou e, ao mesmo tempo, nos manteve unidos.

Responder imediatamente seria interromper algo sagrado. Então eu fico. Escutando. Guardando. Permitindo que sua voz termine de me alcançar por dentro.

Só depois, quando sinto que você já está inteira em mim, começo a escrever a resposta. E mesmo assim, nenhuma palavra minha consegue atravessar a distância com a mesma precisão que a sua voz atravessou.

Porque há sons que não pedem réplica.
Pedem permanência.

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