O Caderno da Mãe – Capítulo 5

Série – A Casa das Vozes. Suspense psicológico e mistério sobre segredos enterrados em uma antiga casa de família

O Caderno da Mãe

O caderno não estava guardado. Estava esquecido de propósito.

Clara o encontrou no fundo do armário do antigo quarto da mãe, atrás de caixas vazias e roupas que já não carregavam forma nem cheiro. Era fino, de capa dura azul acinzentada, com as bordas gastas e manchas que o tempo não conseguiu explicar. Não havia nome na capa. Nenhuma data. Nenhuma indicação de que aquilo fosse importante.

Mas Clara soube no instante em que o tocou.

O peso era estranho, maior do que o esperado para um caderno tão simples. As páginas estavam amareladas, algumas levemente onduladas, como se tivessem sido expostas à umidade por muito tempo. Ao abri-lo, o rangido do papel quebrou o silêncio do quarto, ecoando mais alto do que deveria.

A caligrafia não era da mãe.

Clara conhecia aquelas letras desde a infância. Bilhetes na geladeira, listas de compras, recados rápidos deixados sobre a mesa. A escrita da mãe era firme, direta, sem enfeites. O que via agora era diferente. Traços irregulares, ora delicados demais, ora agressivos, com palavras que pareciam pressionadas contra o papel.

As primeiras páginas não formavam frases completas. Eram anotações soltas. Nomes sem sobrenome. Datas incompletas. Observações curtas, quase sussurradas.

“A casa não esquece.”

“Ele voltou a andar à noite.”

“Não devo escrever sobre o porão.”

Clara sentiu um arrepio percorrer os braços. Aquilo não parecia um diário comum. Não havia confissões pessoais nem relatos do cotidiano. Era um registro de vigilância. Como se alguém estivesse tentando manter controle sobre algo que escapava lentamente.

Ela virou mais algumas páginas. Em certos trechos, a caligrafia mudava abruptamente, tornando-se mais dura, mais angulosa. Em outros, parecia apressada, quase ilegível, como se quem escrevesse estivesse com medo de ser interrompido.

Havia um nome que se repetia.

Sempre incompleto. Sempre cortado pela margem da página, como se o escritor tivesse evitado terminá-lo.

Clara tentou pronunciar aquele início de nome em voz baixa. O som lhe pareceu errado, deslocado, como uma palavra que não pertence à língua que se fala naquela casa.

Foi então que percebeu algo ainda mais inquietante.

Algumas páginas haviam sido arrancadas. Não com cuidado, mas com urgência. Os rasgos eram irregulares, agressivos. Restavam apenas fragmentos presos à lombada, como dentes quebrados.

O caderno da mãe não contava uma história. Ele tentava esconder uma.

Clara fechou o caderno devagar, sentindo o quarto parecer menor, mais atento. Aquela caligrafia desconhecida não pertencia a um estranho qualquer.

Pertencia a alguém que vivera ali.

Alguém que conhecia a casa tão bem quanto temia o que ela guardava.

E, pela primeira vez, Clara se perguntou se a mãe realmente fora a última a escrever naquele caderno.

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