O Caderno do Rei – Capítulo 197

Reino de Veramor nova capa

O Caderno do Rei

O caderno era simples. Capa de couro já marcada pelo tempo, páginas levemente onduladas pela umidade das estações atravessadas. Não havia brasões na capa nem ouro nas bordas. O Rei não queria registrar glórias. Queria guardar o que não se vê.

Sentado junto à janela, onde a luz da manhã pousava com suavidade, ele abriu o caderno e demorou alguns instantes antes de escrever. Não buscava datas exatas, nem acontecimentos grandiosos. Buscava aquilo que permanece quando os acontecimentos se dissolvem.

Escreveu sobre o perfume das manhãs em Veramor. Sobre o cheiro da terra molhada depois da chuva. Sobre as flores que despertavam antes mesmo do sol se mostrar inteiro. Escreveu sobre o silêncio que antecedia o canto de Ícaro e sobre como aquele som sempre parecia inaugurar o dia.

A pena deslizava devagar, como se cada palavra pedisse respeito.

Escreveu sobre o calor das mãos da Rainha. Não como metáfora, mas como memória física. O modo como seus dedos se encaixavam. A forma como o simples gesto de entrelaçar as mãos era suficiente para aquietar qualquer inquietação. Registrou o brilho do olhar dela ao entardecer, o riso que surgia nos dias mais simples, a serenidade que só o amor amadurecido é capaz de sustentar.

Falou de Lórien, da lealdade silenciosa aos pés da cama. De Nilo, guardião das tardes intermináveis. De Luzia, soberana discreta das janelas. De Bravus, alegria viva correndo pelos jardins. Não como personagens de um reino, mas como presenças que ensinaram constância.

O Rei percebeu que não estava escrevendo um livro de memórias. Estava escrevendo um mapa invisível. Um guia para quem um dia quisesse entender o que sustentou Veramor.

Não eram as paredes altas. Não eram os vitrais. Não eram os títulos.

Era o cuidado. Era a permanência. Era a escolha diária de amar mesmo quando o corpo cansava e o tempo avançava.

À medida que as páginas se preenchiam, o caderno deixava de ser objeto. Tornava-se herança. Não uma herança de terras ou tronos, mas de sentimento. Um testamento do que realmente importa quando tudo o mais silencia.

A Rainha aproximou-se em silêncio e pousou a mão sobre o ombro dele. Não perguntou o que escrevia. Sabia. O Rei fechou o caderno por um instante e beijou-lhe a mão com ternura tranquila.

Ícaro cantou ao longe. O som entrou pela janela como selo invisível. A luz tocava as páginas ainda úmidas de tinta, fazendo-as brilhar levemente.

O Rei voltou a escrever.

Porque algumas histórias não precisam ser eternas em pedra. Basta que sejam eternas no coração de quem as recebe.

E naquele caderno simples repousava, inteira, a herança invisível de Veramor.

 
brasão reino de veramor

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