O Canto de Ícaro – Capítulo 199

Reino de Veramor nova capa

O Canto de Ícaro

A manhã estava suspensa em uma calma quase sagrada. O castelo respirava devagar, como se aguardasse algo que ainda não tinha nome. Foi então que Ícaro, pousado no ponto mais alto do salão principal, inclinou a cabeça e começou a cantar.

Não era um canto comum.

A melodia nasceu suave, mas carregava algo diferente, como se cada nota tivesse atravessado o tempo antes de ganhar forma. Havia ali ecos das primeiras manhãs em Veramor, o som das risadas partilhadas no jardim, o silêncio respeitoso das despedidas, o farfalhar das cartas antigas, o calor dourado da luz atravessando os vitrais.

Ícaro não repetia palavras dessa vez. Criava.

E naquela criação parecia unir tudo o que havia sido vivido dentro daquelas paredes. O canto subia, descia, contornava o ar com delicadeza, como se costurasse memórias invisíveis em uma única canção.

O Rei e a Rainha permaneceram imóveis.

Não por surpresa, mas por reconhecimento.

Havia algo naquela melodia que não vinha apenas do pássaro. Era como se o próprio castelo tivesse encontrado voz. Como se cada gesto de amor, cada permanência silenciosa, cada olhar trocado ao entardecer tivesse sido transformado em som.

Os olhos da Rainha se encheram de lágrimas serenas. O Rei sentiu o peito expandir, não de tristeza, mas de plenitude. Eles não se tocaram naquele instante, o toque poderia quebrar a delicadeza do que acontecia. Apenas escutaram.

Nilo ergueu a cabeça, atento. Luzia cessou qualquer movimento e permaneceu estátua viva. Bravus deitou-se, rendido à paz que envolvia o ambiente. O vento, entrando pela janela, parecia acompanhar o ritmo da melodia.

O canto de Ícaro cresceu um pouco mais, depois suavizou-se, como quem sabe exatamente onde deve terminar. A última nota pairou no ar por alguns segundos antes de dissolver-se no silêncio.

Mas o silêncio já não era vazio.

Era presença.

O Rei então compreendeu que aquele som não era apenas música. Era o amor transformado em eternidade. Não precisava de palavras, nem de registros escritos. Existia no ar, na memória, no coração.

E enquanto a última vibração da melodia ainda reverberava nas paredes de Veramor, eles souberam: nada do que foi vivido se perdera.

Tudo agora cantava.

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