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O quarto estava envolto em uma quietude profunda quando Ícaro pousou ao lado da cama do Rei. A luz era baixa, filtrada pelas cortinas, e o ar parecia repousar junto com a respiração dele. Ícaro inclinou levemente a cabeça e começou a cantar. O som era suave, quase um sussurro, uma sequência de notas baixas que não buscavam preencher o espaço, mas acariciar o silêncio que ali morava.
O Rei permanecia de olhos fechados, entregue a um repouso atento, daqueles em que o corpo descansa enquanto a alma ainda escuta. O canto de Ícaro chegava até ele como um fio invisível, atravessando o ar e pousando com cuidado sobre o peito, regulando a respiração, acalmando os pensamentos que insistiam em permanecer despertos. Não era uma melodia para ser entendida, mas sentida, como uma prece que não precisa de palavras.
A Rainha observava tudo em silêncio, sentada próxima à cama. Seus olhos acompanhavam o movimento delicado das penas de Ícaro e o subir e descer do peito do Rei. Havia no olhar dela uma mistura de gratidão e entrega. Ela compreendia que aquele canto não era apenas consolo, mas diálogo. Um diálogo invisível entre o amor que cuida, o som que envolve e o descanso que se aproxima com mansidão.
Lórien, o cachorro, estava deitado junto à lateral da cama, atento, o corpo imóvel e a presença firme. Bravus permanecia próximo à porta, sentado, guardando o espaço com serenidade silenciosa. Ambos pareciam compreender que aquele momento pedia proteção sem interferência, vigília sem ruído.
Nilo, o gato, enroscou-se próximo aos pés do Rei, aquecido pela tranquilidade do ambiente, os olhos semicerrados como quem acompanha o canto por dentro. Luzia repousava mais perto da Rainha, oferecendo seu ronronar discreto, constante, que se misturava às notas de Ícaro e criava uma camada a mais de acolhimento, quase imperceptível, mas essencial.
O canto seguia, repetido com paciência, como se cada nota fosse colocada exatamente onde precisava estar. O silêncio não era quebrado, era ampliado. Tornava-se um espaço habitável, seguro, onde o descanso podia finalmente se aprofundar. A Rainha respirou fundo e fechou os olhos por um instante, sentindo que aquele som também cuidava dela, mesmo sem tocá-la.
Ícaro cessou o canto pouco a pouco, deixando que a última nota se dissolvesse naturalmente no ar. Permaneceu ali, quieto, como se ainda sustentasse algo invisível. O Rei respirava com mais profundidade agora, entregue a um repouso mais pleno. O quarto inteiro parecia suspenso em gratidão.
Naquele instante, ficou claro que o amor nem sempre fala, nem sempre toca, nem sempre pede. Às vezes, ele canta para o silêncio e confia que isso basta. E em Veramor, naquela noite serena, bastava.

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