O Cheiro de Terra Molhada – Capítulo 12

Série – A Casa das Vozes. Suspense psicológico e mistério sobre segredos enterrados em uma antiga casa de família

O Cheiro de Terra Molhada

O cheiro surgiu antes de qualquer sinal visível.

Clara o sentiu ao atravessar o corredor dos fundos, um aroma denso de terra recém-revirada, úmida demais para um espaço fechado. A casa estava seca, aquecida pelo tempo estável daqueles dias, e ainda assim o odor persistia, espalhando-se lentamente, como se brotasse das próprias paredes.

Ela parou, respirando fundo.

O cheiro não vinha do porão. Nem do jardim. Parecia emergir do chão, debaixo das tábuas antigas, infiltrando-se pelas frestas com uma insistência inquietante. Clara seguiu o rastro com cuidado, sentindo o coração bater mais rápido a cada passo.

A cozinha estava vazia. A sala, silenciosa. O odor se intensificava à medida que ela se aproximava do quarto que ninguém usava, aquele ao lado do armário com a porta escondida.

O piso ali parecia diferente.

Uma das tábuas estava levemente elevada, quase imperceptível, mas suficiente para quebrar a regularidade do chão. Clara ajoelhou-se, passando os dedos pela madeira. Estava fria. Úmida. Umidade que não deveria existir ali.

O cheiro de terra molhada se tornou mais forte.

Clara sentiu um aperto no peito, uma certeza se formando antes mesmo de qualquer prova. A casa não estava apenas lembrando. Estava apontando.

Ela foi até o depósito e voltou com uma ferramenta simples. Não cavou. Apenas forçou a tábua com cuidado. O som seco da madeira cedendo ecoou pelo quarto, alto demais no silêncio absoluto.

Sob o piso, não havia terra comum.

Era um solo escuro, compactado, claramente colocado ali. Não fazia parte da fundação original. Alguém abrira aquele espaço, enchera com terra e depois fechara, acreditando que o tempo faria o resto.

Clara não precisou tocar.

O cheiro era suficiente para entender que algo permanecia ali, enterrado não apenas fisicamente, mas também na história da casa. Não era um enterro formal. Era uma tentativa de apagamento.

Ela recuou, o estômago embrulhado.

O diário. O gravador. A mulher da escada. A porta escondida. Tudo convergia para aquele ponto invisível sob o assoalho. Clara sentiu um calafrio lento percorrer-lhe o corpo.

A casa queria que ela encontrasse aquilo.

Não por curiosidade, mas por necessidade.

Clara recolocou a tábua no lugar, com mãos trêmulas, sabendo que aquilo era apenas uma pausa. O cheiro de terra molhada não desapareceu. Continuou ali, impregnando o ar, lembrando-a de que algumas coisas não podem permanecer enterradas para sempre.

A casa estava cansada de sustentar o silêncio.

E o que quer que estivesse sob aquele chão aguardava, paciente, o momento de ser revelado.

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