O Diário de 1984 – Capítulo 8

Série – A Casa das Vozes. Suspense psicológico e mistério sobre segredos enterrados em uma antiga casa de família

O Diário de 1984

O diário estava escondido dentro de uma caixa de metal, enterrada sob tábuas soltas no fundo do armário do porão.

Clara não lembrava de ter decidido descer até lá. Apenas percebeu que estava no último degrau, com a lanterna tremendo na mão e o ar pesado demais para respirar com naturalidade. O porão parecia menor do que na memória, como se as paredes tivessem avançado lentamente ao longo dos anos.

A caixa estava enferrujada, coberta por poeira espessa. Alguém a colocara ali com a intenção clara de que não fosse encontrada. Ainda assim, estava exatamente onde Clara precisava que estivesse.

Dentro, havia um caderno de capa preta, grosso, com o ano escrito à mão em tinta desbotada.

  1.  

As primeiras páginas eram metódicas, quase clínicas. Datas, horários, pequenas observações sobre a casa. Nada emocional. Nada pessoal. O autor parecia mais interessado em registrar do que em confessar.

“A casa reage ao frio.”

“As escadas são o ponto de passagem.”

“O espelho responde melhor à noite.”

Clara sentiu o peso daquelas frases se acomodar dentro dela. Não eram delírios. Eram constatações. Alguém observara os mesmos fenômenos, décadas antes, com a mesma inquietação contida.

À medida que avançava na leitura, a escrita mudava. Tornava-se mais irregular. As margens começavam a ser invadidas por anotações laterais, como se o autor precisasse acrescentar pensamentos que não cabiam mais na estrutura inicial.

Havia menções a uma mulher.

Nunca nomeada. Sempre descrita pela presença. Pela escada. Pelo silêncio que deixava após aparecer.

Clara sentiu um arrepio lento percorrer-lhe a espinha.

Em uma das páginas centrais, um trecho estava sublinhado com força excessiva, quase rasgando o papel.

“Ela não está morta. Está presa.”

A leitura tornou-se difícil a partir dali. As frases se fragmentavam. Algumas palavras eram riscadas repetidamente, como se o autor tivesse tentado apagá-las sem sucesso. Havia páginas manchadas por algo escuro, antigo, impossível de identificar.

O diário mencionava uma decisão.

Algo feito para proteger a casa. Ou talvez para proteger as pessoas dela. Clara percebeu que certos acontecimentos não eram descritos diretamente, apenas insinuados, como se escrever sobre eles fosse perigoso demais.

Na última página preenchida, a caligrafia era quase irreconhecível.

“Se alguém encontrar isto, não confie nos reflexos.”

“Não abra todas as portas.”

“O porão não esquece.”

O diário terminava abruptamente. As páginas seguintes estavam em branco, mas carregavam a sensação incômoda de palavras não escritas, como se o silêncio também fosse uma forma de registro.

Clara fechou o caderno com cuidado.

1984 não fora apenas o ano em que algo começou.

Fora o ano em que alguém percebeu que a casa estava viva.

E decidiu, por medo ou culpa, deixar que ela permanecesse assim.

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