O Espelho do Lago – Capítulo 12

o retorno à vila da neve

O Espelho do Lago

O lago permanece intacto sob uma camada espessa de gelo, liso como um espelho esquecido pelo inverno. Helena Frost se aproxima devagar, sentindo o ar mais úmido e o silêncio mais concentrado. A superfície branca reflete o céu pálido, criando a sensação de que o mundo se duplicou.

Ela para à margem, onde o gelo encontra a terra escura. Aquele lugar sempre teve algo de revelador. Quando criança, vinha ali para pensar, acreditando que a água guardava respostas que ninguém mais ousava oferecer. Agora, retorna com perguntas mais pesadas.

O reflexo não mostra apenas seu rosto. Mostra o que ficou suspenso no tempo. Helena observa as próprias feições e percebe nelas marcas que não são do inverno atual. São vestígios de decisões antigas, de silêncios sustentados por tempo demais. O lago devolve uma imagem sem indulgência.

Ela se ajoelha e passa a mão pela superfície congelada. O frio atravessa o tecido da luva, alcançando a pele. O contato desperta lembranças que ela tentou reorganizar, mas nunca realmente encarar. O dia da partida. O medo. A culpa repartida de forma desigual.

Helena entende, ali, que o tempo não apaga. Ele apenas esconde sob camadas sucessivas de dias. O que não é visto continua existindo, aguardando o momento certo para refletir de volta.

O som de passos atrás dela não quebra o silêncio. Apenas o completa. Elias Morven se aproxima com cuidado, respeitando o espaço e a gravidade daquele instante. Ele para ao lado dela, também olhando para o lago.

Ambos veem mais do que o próprio reflexo. Veem o que foram e o que ainda tentam ser. Não há acusações. Apenas constatação.

Helena inspira fundo. O ar frio entra com clareza. Pela primeira vez, ela não desvia o olhar. Aceita o que o espelho do lago revela. O tempo tentou esconder verdades, mas falhou.

Algumas imagens sempre retornam.

E exigem ser reconhecidas.

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