O Espelho Quebrado – Capítulo 14

Série – A Casa das Vozes. Suspense psicológico e mistério sobre segredos enterrados em uma antiga casa de família

O Espelho Quebrado

O som da quebra não foi alto.

Foi seco, contido, como se o vidro tivesse cedido por exaustão, não por impacto. Clara estava no corredor quando ouviu o estalo vindo do quarto ao lado. Correu até lá e encontrou o espelho antigo caído no chão, a moldura partida ao meio.

Não havia ninguém no quarto.

A janela estava fechada. A porta, intacta. O espelho simplesmente não suportara mais o próprio peso.

Os fragmentos espalhados pelo chão refletiam pedaços desconexos do ambiente. Um pedaço do teto. Uma parte da parede. Um recorte do rosto de Clara multiplicado em ângulos distorcidos.

Ela ajoelhou-se devagar.

Em um dos cacos maiores, viu algo que não estava no quarto.

Uma escada.

Não a escada principal da casa, mas outra, mais estreita, de pedra bruta. O reflexo mostrava uma mulher parada ao fundo, parcialmente envolta em sombra. O rosto não era nítido, mas os olhos estavam fixos.

Clara olhou ao redor.

Nada.

Voltou os olhos para o fragmento.

A imagem permanecia.

Outro pedaço de vidro revelava uma cena diferente. Uma sala antiga, iluminada por uma lâmpada fraca. Duas figuras discutiam em silêncio, os gestos tensos, rápidos. Clara não ouvia as palavras, mas reconhecia o desespero nos movimentos.

Em outro fragmento, mãos sujas de terra.

Em outro, o retrato de família antes de o rosto desaparecer.

Clara sentiu o coração apertar. O espelho não refletia o presente. Refletia o que fora escondido.

Ela percebeu então que cada caco revelava um instante diferente, como se o vidro tivesse absorvido imagens ao longo dos anos. Não eram memórias vagas. Eram registros. Testemunhos silenciosos de tudo o que a casa presenciara.

Em um dos menores fragmentos, quase escondido sob a moldura, Clara viu algo que a fez prender a respiração.

A mulher da escada ajoelhada no chão do porão.

Não havia terror em seu rosto. Havia traição. Uma expressão de incredulidade dolorosa, como quem percebe tarde demais que confiou nas pessoas erradas.

Atrás dela, duas sombras.

Não nítidas o suficiente para serem identificadas, mas claras o bastante para mostrar que ela não estava sozinha naquele momento.

Clara sentiu as mãos tremerem.

Culpa.

A palavra ecoou em sua mente com força inesperada. Aquilo não fora um acidente. Não fora um erro isolado. Fora uma decisão mantida pelo silêncio, sustentada por gerações que escolheram não olhar.

O espelho quebrara porque não podia mais sustentar a versão incompleta da história.

Clara recolheu um dos fragmentos maiores e segurou-o diante do rosto.

Por um instante, seu reflexo se misturou ao da mulher.

Os traços se sobrepunham de forma perturbadora. Não eram idênticas, mas compartilhavam algo essencial, um vínculo invisível que ultrapassava o tempo.

O vidro cortou levemente a pele de seus dedos. Uma linha fina de sangue surgiu, brilhando sob a luz fraca.

Clara não recuou.

Os fragmentos não estavam apenas mostrando o passado.

Estavam exigindo reconhecimento.

E agora que a culpa começava a ganhar forma, o silêncio que sustentara a casa por décadas começava, enfim, a se despedaçar junto com o espelho.

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