O Homem da Casa Azul – Capítulo 2

o retorno à vila da neve

O Homem da Casa Azul

A casa azul permanece no fim da rua, ligeiramente afastada das outras, como se tivesse sido colocada ali por engano ou escolha. A pintura está desbotada pelo frio e pelos anos, mas ainda resiste, um azul opaco que contrasta com o branco absoluto da neve. Helena Frost para a alguns metros de distância. Não se aproxima de imediato. Algumas portas não devem ser tocadas sem que o coração esteja pronto.

Ela lembra de quando a casa parecia maior. As janelas sempre iluminadas, o cheiro de café escapando pela chaminé, o som de passos que ela reconheceria mesmo no escuro. Hoje, tudo é quietude. Apenas uma fumaça fina sobe lentamente, denunciando que alguém ainda habita aquele espaço.

O homem surge no alpendre como se tivesse sentido a presença dela antes mesmo de vê-la. Alto, ombros rígidos, o rosto marcado por um tempo que não foi gentil. Elias Morven não mudou tanto quanto ela imaginava. Mudou onde mais importa. Nos olhos. Eles carregam uma calma cansada, aquela de quem aprendeu a conviver com a ausência sem nunca aceitá-la por completo.

Ele não acena. Não sorri. Apenas observa. Helena sente o peso daquele olhar atravessar o casaco, a pele, as defesas cuidadosamente construídas. Durante um instante, nenhum dos dois se move. A vila parece conter a respiração junto com eles.

Elias desce um degrau. Depois outro. Para a meio caminho, como se respeitasse uma fronteira invisível. A casa azul fica atrás dele, sólida, silenciosa, cúmplice.

— Achei que você não voltaria, diz ele, a voz baixa, sem acusação, sem surpresa.

Helena inspira fundo. O ar gelado queima os pulmões.
— Eu também, responde.

Não há perguntas. Não ainda. As palavras necessárias ficaram presas no passado, congeladas junto com tudo o que não foi dito. O que existe agora é apenas esse encontro tardio, duas vidas que seguiram adiante em direções opostas e, por algum motivo, voltaram a se cruzar exatamente ali.

A neve começa a cair novamente, lenta, paciente. Elias olha para o céu por um instante, depois volta os olhos para Helena.

— A casa nunca mudou de cor, diz ele. Algumas coisas não mudam. Mesmo quando a gente tenta.

Helena entende que ele não fala da tinta.

Ela dá um passo à frente. Apenas um. O suficiente para quebrar o silêncio sem destruí-lo. A vila de neve observa, como sempre fez.

E, diante da casa azul, Helena Frost percebe que o passado não está morto. Apenas esperava o momento certo para abrir a porta.

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