O Perfume da Lembrança – Capítulo 13 –

o retorno à vila da neve

O Perfume da Lembrança

O perfume chega antes da compreensão. Helena Frost o percebe no corredor estreito da casa azul, misturado ao cheiro antigo de madeira e inverno. Não é forte. Não invade. Apenas permanece, como uma assinatura deixada no ar por alguém que soube sair sem se apagar.

Ela reconhece. Não por memória imediata, mas por repetição silenciosa. Aquele aroma a acompanhou em noites distantes, em cartas lidas e relidas, em músicas tocadas sem letra. Um perfume discreto, feito de notas simples, quase invisíveis. O mesmo que Elias Morven sempre usou quando precisava ser menos visto.

Helena segue o rastro até um armário antigo, esquecido no fundo do quarto. Ao abri-lo, encontra um casaco dobrado com cuidado excessivo, como se o gesto tivesse sido repetido muitas vezes para não doer. Ela o toca e sente o perfume se intensificar, trazendo junto uma sequência de imagens que nunca foram totalmente explicadas.

É ali que a ausência começa a fazer sentido.

Dentro do bolso interno, há um pequeno frasco quase vazio. Helena o retira com delicadeza, como se segurasse algo frágil demais para o presente. O rótulo está gasto, mas legível. Foi feito sob encomenda. Um perfume criado para não chamar atenção, para não deixar rastros evidentes. Para permanecer sem ser notado.

Helena entende, com um aperto calmo no peito, que Elias escolheu desaparecer de certas formas para proteger o que sentia. Ele permaneceu próximo sem ocupar espaço. Presente sem exigir retorno. A ausência dele não foi abandono. Foi cuidado silencioso.

Ela se senta à beira da cama, o casaco ainda nas mãos. O perfume não fala de fuga. Fala de espera. De alguém que decidiu ficar à margem para não ferir, para não pressionar, para não transformar amor em peso.

Quando Elias aparece à porta, ela não se assusta. Apenas levanta o olhar. Ele percebe o frasco, o casaco, o entendimento que se instalou entre eles.

Helena não precisa perguntar. O segredo já se revelou sozinho.

A ausência dele sempre foi uma forma de presença.

E, naquele instante, o perfume da lembrança deixa de ser vestígio. Torna-se prova.

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