O Projeto do Rei – Capítulo 204

Reino de Veramor nova capa

O Projeto do Rei

O novo salão ainda carregava o cheiro recente da transformação quando o Rei iniciou o projeto que há tempos habitava seus pensamentos. Não era apenas mais uma tarefa. Era algo maior, mais exigente, mais profundo. Um trabalho que pedia não só sua inteligência, mas sua presença inteira.

As mesas agora organizadas recebiam mapas atualizados, anotações, cálculos e ideias que se desdobravam em possibilidades. A luz que atravessava os vitrais iluminava páginas abertas, mas também revelava o quanto o Rei estava imerso em algo que o puxava para dentro.

Ele acordava mais cedo. Dormia mais tarde. E, nos intervalos entre um momento e outro, sua mente permanecia ocupada.

Não era ausência de amor.

Era excesso de responsabilidade.

A Rainha observava em silêncio. No início, sentiu orgulho. Via nele a dedicação de sempre, o compromisso com aquilo que acreditava. Mas, com o passar dos dias, percebeu algo mais sutil.

Ele estava ali.
Mas nem sempre estava presente.

As conversas tornaram-se mais curtas. As respostas, mais distraídas. Os olhares, por vezes, passavam por ela sem realmente encontrá-la. Pequenos detalhes que, somados, criavam uma distância que não era física.

Nilo passou a ocupar mais o colo da Rainha, como se percebesse o espaço que se formava. Luzia mantinha sua postura observadora, acompanhando o movimento com a calma de quem sabe que nem todo afastamento é definitivo. Bravus ainda trazia movimento ao ambiente, mas até sua energia parecia encontrar limites diante da concentração do Rei. Ícaro cantava, mas o Rei já não reagia com a mesma prontidão.

O trabalho avançava.

O Reino ganhava estrutura, organização, novas possibilidades.

Mas, ao mesmo tempo, algo silencioso começava a se deslocar entre eles.

A Rainha não interrompia. Não cobrava. Sabia reconhecer o valor do que ele fazia. Mas sentia falta daquilo que não se mede em resultados. A presença plena. O olhar atento. O gesto que não tem pressa.

Uma noite, sentaram-se juntos para o chá, como sempre fizeram. O hábito permanecia, mas a essência daquele momento parecia diferente. O Rei, com o olhar ainda preso aos pensamentos, mexia distraidamente a xícara. A Rainha o observava.

Ele estava cansado.

Mas não percebia o quanto também estava distante.

Foi então que ela tocou sua mão. Um gesto simples, mas carregado de intenção. O Rei levantou o olhar, como se retornasse de um lugar muito longe.

Naquele instante, tudo ficou claro para ele.

O projeto exigia muito.
Mas não podia levar tudo.

Ele apertou suavemente a mão dela, sem dizer nada. Não era ainda o momento de mudar o ritmo. Mas era o momento de reconhecer.

Amar também é perceber quando o excesso de responsabilidade começa a roubar aquilo que mais importa.

E naquela noite, mesmo sem resolver tudo, o Rei entendeu que precisava aprender a voltar.

Não apenas ao castelo.

Mas a ela.

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