O Silêncio Entre Dois Áudios – Capítulo 6

O Guardanapo da Primeira Confissão

O Silêncio Entre Dois Áudios

Envio o áudio e deixo o telefone repousar ao meu lado, como quem deposita algo frágil sobre a mesa. Minha voz já não está comigo. Ela foi. Agora pertence ao caminho invisível que leva até você, Vera Lúcia.

O silêncio começa.

Não é um silêncio abrupto, desses que incomodam. É um silêncio atento. Denso. Cheio de escuta. O tempo entre um áudio e outro se estende mais do que o relógio consegue medir, porque nele cabem pensamentos, memórias e uma expectativa que não pede pressa.

Imagino você ouvindo. Talvez parada. Talvez sentada. Talvez fechando os olhos para captar melhor aquilo que não se diz nas palavras, mas no tom. E essa imagem basta para que eu espere sem ansiedade. O amor que temos não corre. Ele sabe permanecer.

O telefone permanece quieto. Nenhuma notificação. Nenhum som. Ainda assim, há movimento dentro de mim. Não é inquietação. É presença. O respeito por esse intervalo é parte do que nos une. Não invadir o tempo do outro também é uma forma de cuidado.

Cada segundo que passa reafirma algo silencioso: não precisamos preencher todos os espaços para estarmos juntos. O intervalo também é linguagem. Ele diz que há atenção. Que há recepção. Que há um sentir sendo elaborado do outro lado.

Quando o áudio de resposta finalmente chega, ele não quebra o silêncio. Ele o completa. Como se o tempo de espera fosse parte da mensagem, e não sua ausência.

Nesse amor, até o silêncio sabe falar.

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