O Sopro e a Luz – Capítulo 174

Reino de Veramor nova capa

O Sopro e a Luz

O Rei despertou naquela manhã com o peso de uma noite difícil ainda repousando sobre o corpo. A respiração vinha mais curta, e o pensamento parecia caminhar com esforço, como se a alma atravessasse um inverno próprio. Ele permaneceu alguns instantes de olhos fechados, escutando o silêncio do quarto, tentando reconhecer em si o fôlego necessário para começar mais um dia.

Foi então que sentiu a presença da Rainha. Ela estava ali, de pé, observando-o com um sorriso sereno, desses que não ignoram a dificuldade, mas a acolhem. Seus olhos continham uma luz calma, firme, capaz de atravessar qualquer estação interna. Ao perceber que ele havia acordado, aproximou-se da cama e tocou-lhe o rosto com delicadeza, oferecendo um sopro de presença antes mesmo de qualquer palavra.

Com um gesto simples, a Rainha caminhou até a janela e abriu as cortinas. A luz da manhã entrou devagar, espalhando-se pelo quarto como um rio silencioso. Não era uma claridade agressiva, mas uma luz mansa, dourada, que parecia compreender o estado do Rei e se adaptar a ele. Ao tocar o ambiente, aquela luz também tocava o interior, despertando algo que ainda estava adormecido.

Lórien, o cachorro, levantou-se lentamente e aproximou-se da cama, apoiando a cabeça próxima à mão do Rei, oferecendo calor e companhia sem exigir reação. Bravus permaneceu mais afastado, atento, com o olhar firme voltado para o casal, como quem guarda aquele renascimento silencioso. Ambos compreendiam que a manhã pedia cuidado e respeito.

Nilo, o gato, esticou-se preguiçosamente sobre a colcha, abrindo os olhos ao sentir a luz nova, e se acomodou novamente perto do Rei, como se quisesse ancorá-lo no presente. Luzia caminhou até o parapeito da janela e deixou que a claridade tocasse seu pelo, tornando-se quase parte da própria manhã, serena e observadora.

Ícaro pousou próximo à cortina recém-aberta. Suas penas refletiam a luz que entrava, e ele soltou um som breve e suave, não um canto pleno, mas um sinal delicado de que o dia havia chegado. Aquele pequeno som se misturou ao silêncio e ajudou a costurar o instante, como um ponto final suave em uma longa noite.

O Rei abriu os olhos e encontrou o sorriso da Rainha iluminado pela manhã. Sentiu que, mesmo quando a alma atravessa estações frias, o amor tem o poder de oferecer um novo começo. Não apagava o cansaço, mas lhe dava sentido. Não negava a dor, mas lhe oferecia abrigo. Ele respirou fundo, sentindo o ar preencher o peito com mais facilidade.

A Rainha sentou-se ao seu lado e segurou sua mão, deixando que a luz e o toque fizessem juntos o trabalho silencioso da reconstrução. O quarto agora estava desperto, habitado por presença, animais atentos e uma claridade que não exigia pressa. O Rei compreendeu que renascer nem sempre é levantar forte, mas aceitar a luz que entra quando alguém a abre por amor.

E assim, naquela manhã difícil transformada em começo, o Reino de Veramor respirou mais uma vez em harmonia, lembrando que mesmo nos invernos da alma, o amor sempre encontra um jeito de acender a luz.

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