O Visitante da Noite – Capítulo 15

Série – A Casa das Vozes. Suspense psicológico e mistério sobre segredos enterrados em uma antiga casa de família

O Visitante da Noite

A presença que não pertence ao mundo dos vivos.

A casa acordou antes dela.

Clara sentiu isso no instante em que abriu os olhos. O quarto estava mergulhado em escuridão, mas havia uma diferença no ar. Não era apenas frio. Era densidade. Como se algo ocupasse espaço demais.

O relógio marcava três horas.

O corredor, do outro lado da porta, respirava em silêncio. Nenhum rangido. Nenhum vento. Nenhum sussurro. A ausência de som era tão completa que parecia construída.

Então veio o toque.

Não na porta. Não na janela.

No chão.

Um passo lento, pesado, diferente dos ecos habituais. Não era o arrastar suave que ela aprendera a reconhecer. Era firme. Consciente. Ritmado.

Alguém caminhava pela casa.

Clara sentou-se na cama, o coração disparado. Cada passo ecoava pelo assoalho como se a madeira estivesse sendo pressionada por algo que conhecia bem o caminho. O som aproximava-se do quarto, parando por instantes entre um degrau e outro da escada.

Não havia pressa. Havia certeza.

O trinco da porta girou lentamente.

Clara não gritou. Não conseguiu. O ar parecia pesado demais para atravessar sua garganta. A porta se abriu alguns centímetros, revelando o corredor escuro além.

Uma silhueta ocupava o vão.

Alta. Imóvel. A forma era humana, mas havia algo deslocado em sua postura. A cabeça levemente inclinada, os ombros rígidos, como se o corpo fosse apenas um molde imperfeito para algo maior.

O frio invadiu o quarto com intensidade.

Clara tentou focar no rosto, mas ele parecia sempre fora de alcance, como se a escuridão se reorganizasse para ocultá-lo. Ainda assim, ela sentiu o olhar.

Não era vazio.

Era antigo.

A presença deu um passo à frente. O chão não rangeu. O som que Clara ouvira antes não vinha do peso de um corpo, mas da própria casa reagindo.

Ela entendeu então.

Aquilo não era a mulher da escada.

Não era uma memória presa.

Era algo que surgira depois.

Algo alimentado pelo silêncio, pela culpa, pela terra revirada e pelo nome esquecido. Uma forma criada pelo que não fora enfrentado.

O visitante não falava. Não precisava. Sua presença carregava a ameaça clara de ruptura. Se a verdade fosse exposta, algo se perderia. Se permanecesse enterrada, algo se fortaleceria.

Clara sentiu o quarto encolher.

Por um instante, a silhueta pareceu se dissolver nas sombras, mas não desapareceu completamente. Apenas recuou, fundindo-se ao escuro do corredor, como fumaça que aprende a esperar.

A porta fechou sozinha, com suavidade.

O silêncio voltou, mas não o mesmo silêncio de antes. Havia algo novo na casa agora. Algo que não pertencia ao mundo dos vivos, mas também não estava preso como as outras presenças.

Era diferente.

Clara permaneceu sentada até o amanhecer, entendendo que cruzara um limite invisível.

A casa não guardava apenas o passado.

Ela começava a gerar algo próprio.

E o visitante da noite era a prova de que o tempo de apenas observar estava chegando ao fim.

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