Retratos Congelados – Capítulo 3

o retorno à vila da neve

Retratos Congelados

O interior da casa azul guarda um silêncio diferente. Não é o silêncio da vila, amplo e distante, mas um silêncio doméstico, feito de objetos que aprenderam a esperar. Helena Frost cruza a soleira com cautela, como se cada passo pudesse acordar lembranças adormecidas no assoalho.

O calor da lareira é discreto, contido, quase respeitoso. Sobre as paredes, os retratos permanecem onde sempre estiveram. Molduras simples, madeira escurecida pelo tempo. Elias não precisou convidá-la a olhar. Ela já sabia para onde o passado a conduziria.

A primeira fotografia a prende por inteiro. Dois rostos jovens, ainda inconscientes do peso das escolhas. O sorriso dela é aberto, quase ingênuo. O dele, contido, mas verdadeiro. Helena toca a borda da moldura com a ponta dos dedos. O vidro está frio, apesar do fogo próximo. O frio sempre encontra um jeito de permanecer.

Há outras imagens. Festas pequenas, invernos antigos, pessoas que já partiram ou ficaram para sempre presas à vila. Um retrato em especial a faz prender a respiração. Thomas Frost. O nome que nunca foi dito em voz alta desde a noite em que tudo mudou. O olhar firme, a postura rígida, como se ele soubesse que o mundo não costuma ser gentil com quem ama demais.

— Ele gostava dessa foto — diz Elias, atrás dela. A voz vem baixa, cuidadosa. — Dizia que parecia mais forte nela.

Helena não responde de imediato. Observa o rosto que a acompanhou em sonhos e culpas.
— Ele era — diz por fim. — Só cansou de lutar contra o frio.

O relógio antigo marca as horas com um som oco, quase cerimonial. Cada batida parece fixar as imagens no tempo, impedindo que desapareçam. Fotografias não mentem, mas também não explicam. Mostram o que foi, nunca o que doeu.

Elias se aproxima e retira uma moldura menor de uma prateleira alta. Entrega a Helena sem olhar diretamente para ela. É uma imagem que ela não lembrava de existir. Ela está de costas, parada na praça central, envolta por neve e silêncio. Foi tirada no dia em que partiu.

— Nunca tive coragem de guardar essa — diz ele. — Mas também nunca consegui jogar fora.

Helena segura a fotografia com ambas as mãos. Sente o peso do instante congelado, da versão de si mesma que acreditava estar escapando quando, na verdade, apenas adiava o retorno.

O frio tentou apagar aquelas histórias. O tempo tentou distorcê-las. Mas ali, entre paredes azuis e retratos imóveis, Helena entende que algumas memórias não se desfazem. Elas apenas esperam ser encaradas.

E, enquanto a neve cai do lado de fora, o passado começa a se mover outra vez.

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