Sombras na Lareira – Capítulo 9

o retorno à vila da neve

Sombras na Lareira

O fogo crepita baixo na lareira, projetando sombras irregulares pelas paredes da casa azul. Helena Frost observa as chamas como se elas pudessem responder às perguntas que evitou por anos. O calor não alcança tudo. Há partes dela que permanecem intocadas, imóveis, presas a um tempo que insiste em retornar.

Elias Morven está sentado à sua frente, em silêncio. A luz do fogo recorta o rosto dele, revelando linhas que não existiam antes. Não são marcas de idade apenas. São marcas de escolhas. De permanência. De espera.

A madeira estala mais alto por um instante. O som rompe algo invisível entre eles.

Helena sente antes de compreender. O passado não voltou apenas para ser lembrado. Ele exige lugar. Exige resposta. A imagem de Thomas Frost atravessa sua mente com nitidez incômoda. O nome que nunca circulou livremente na vila. O acontecimento que ninguém ousou organizar em palavras.

Ela respira fundo. O ar quente pesa nos pulmões.

Elias ergue o olhar, como se soubesse exatamente o que se aproxima.
— Você não voltou só por saudade, diz, com voz firme, mas contida. Voltou porque algo ficou em aberto.

Helena não nega. As sombras na parede parecem se mover de forma diferente agora, formando contornos que lembram figuras antigas, cenas interrompidas, noites que nunca se explicaram por completo.

— Eu fugi, diz ela, por fim. Não apenas da vila. Fugi do que aconteceu. Do que não consegui impedir.

O silêncio que segue não é vazio. É carregado. Elias se inclina levemente para frente, os cotovelos apoiados nos joelhos. O fogo reflete em seus olhos, tornando-os mais escuros.

— Todos pagamos de algum jeito — responde. Alguns ficando. Outros indo embora.

Helena sente o peso da frase se instalar. Ela percebe que o passado não quer desculpas. Quer reconhecimento. Quer ser nomeado, encarado, colocado no centro da sala onde sempre esteve, mesmo quando fingiram que não.

A lareira lança uma sombra maior, mais definida. Por um instante, Helena tem a impressão de ver o passado inteiro sentado ali com eles, exigindo espaço, exigindo verdade.

Ela entende então que amar também significa enfrentar o que foi deixado para trás. Não há recomeço possível sem atravessar aquilo que ficou mal resolvido.

Do lado de fora, o vento sopra contra as janelas, trazendo ecos do bosque, da vila, de tudo o que foi silenciado. Helena Frost sustenta o olhar de Elias, sabendo que o próximo passo não será simples.

As sombras na lareira não vieram assustar.

Vieram cobrar.

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