Sombras no Espelho – Capítulo 7

Série – A Casa das Vozes. Suspense psicológico e mistério sobre segredos enterrados em uma antiga casa de família

Sombras no Espelho

O espelho do banheiro sempre estivera ali.

Antigo, alto, com a moldura de madeira escura levemente empenada pela umidade, refletia o rosto de Clara todas as manhãs sem jamais chamar atenção. Era apenas um objeto funcional, silencioso, previsível. Até aquela noite.

Clara lavava o rosto quando sentiu a mudança no ar. Não foi um som nem um movimento. Foi a sensação clara e imediata de não estar sozinha, apesar de o reflexo mostrar apenas seu próprio corpo inclinado sobre a pia.

Ela ergueu a cabeça devagar.

O espelho devolveu sua imagem com um pequeno atraso. Quase imperceptível. Um intervalo mínimo entre o gesto e o reflexo. O suficiente para que o estômago de Clara se contraísse.

Ela ficou imóvel, observando.

O reflexo piscou depois dela.

Clara respirou fundo, tentando manter a calma. A luz amarelada do banheiro tremulou levemente, mas não apagou. No vidro, seus olhos pareciam mais escuros, fundos demais, como se algo por trás deles estivesse observando de volta.

Ela se aproximou do espelho.

A superfície estava fria, fria demais para um ambiente fechado. Ao encostar os dedos no vidro, sentiu um arrepio atravessar-lhe o braço inteiro. O reflexo repetiu o gesto, mas novamente com atraso, como se decidisse imitá-la apenas depois de avaliá-la.

Então algo mudou.

Por um instante breve, o rosto refletido não era exatamente o seu. As linhas eram mais duras. A expressão, mais antiga. Os olhos carregavam um cansaço profundo, um peso que Clara nunca sentira em si mesma.

Ela recuou bruscamente.

O reflexo sorriu.

Não foi um sorriso amplo, nem agressivo. Foi contido, quase melancólico. Um gesto íntimo demais para pertencer a um espelho. Clara sentiu o coração disparar, a respiração falhar.

Quando piscou, a imagem voltou ao normal.

Ainda assim, algo permanecia errado. O espelho parecia mais fundo, como se não refletisse apenas a superfície, mas um espaço além, um lugar onde sombras se acumulavam, aguardando atenção.

Naquela noite, Clara evitou os espelhos da casa. Passou pelo corredor desviando o olhar do vidro do aparador. Cobriu o espelho do quarto com um lençol antigo. Mesmo assim, sentia os reflexos presentes, atentos, como olhos que não precisam ser vistos para observar.

Antes de dormir, arriscou um último olhar.

O lençol estava ligeiramente afastado, formando uma pequena abertura. O suficiente para revelar um fragmento do espelho. Dentro dele, algo se movia, lento, paciente.

Não era mais uma questão de imaginação.

As sombras não apenas refletiam.

Elas reconheciam.

E, pela primeira vez, Clara compreendeu que a casa não se manifestava apenas em sons ou aparições. Ela usava superfícies, imagens e memórias para se aproximar.

O espelho não mostrava o que Clara era.

Mostrava o que a casa lembrava.

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