O silêncio no elevador – Capítulo 3

O café que esfria antes do primeiro gole

O silêncio no elevador

As portas se fecharam com um som seco, quase cerimonial. Por alguns segundos, tudo o que existia era o reflexo deles no espelho e o leve zumbido do mecanismo em movimento. Nenhum dos dois falou.

Era curioso como o silêncio, quando dividido, ganhava outra densidade. Não era apenas ausência de som. Era presença de tudo o que não se dizia.

Ela manteve os olhos fixos no painel iluminado, acompanhando os números que subiam lentamente. Ele, ao lado, parecia ocupado demais ajustando a própria respiração, como se qualquer movimento em falso pudesse quebrar algo invisível entre eles.

O espaço era pequeno demais para ignorar o outro, e íntimo demais para fingir naturalidade.

Havia um leve perfume no ar, misturado ao cheiro metálico do elevador. Pequenos detalhes se tornavam gigantes quando não havia distração. O som dos passos, o leve toque de tecido, o reflexo quase imperceptível de um olhar que se desviava rápido demais.

E dentro daquele silêncio, pensamentos surgiam com uma clareza desconfortável.

Ela pensava no quanto era estranho dividir um espaço tão reduzido com alguém que, em outro tempo, ocupou tanto espaço dentro dela. Pensava em como as palavras que antes fluíam com facilidade agora pareciam presas em algum lugar entre o peito e a garganta.

Ele pensava em dizer algo simples. Um cumprimento qualquer, algo neutro, quase automático. Mas cada frase ensaiada parecia insuficiente, rasa demais diante de tudo o que havia ficado pendente.

O elevador seguiu subindo.

E o silêncio continuou ali, firme, quase sólido.

Não era vazio. Era carregado de memórias, de possibilidades não vividas, de versões de uma conversa que nunca aconteceu. Era o tipo de silêncio que revela mais do que esconde.

Por um instante, os olhos deles se encontraram no reflexo do espelho. Rápido demais para ser interpretado, lento o suficiente para ser sentido. Nenhum dos dois sustentou.

As portas se abriram.

O som foi um alívio disfarçado de rotina.

Ela saiu primeiro, sem olhar para trás. Ele permaneceu por um segundo a mais, como se ainda houvesse algo a ser resolvido naquele espaço suspenso entre andares.

Mas não havia.

Algumas coisas não se resolvem com palavras. E outras simplesmente não se resolvem.

As portas se fecharam novamente.

E o silêncio, que antes era compartilhado, voltou a ser de cada um.

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