A Dúvida de Vera – Capítulo 11

O Homem que Dizia Não Pertencer Aqui. Ele estava sentado no banco frio da rodoviária, como se aguardasse algo

A Dúvida de Vera

Hoje percebi que já não consigo observar Elias com a mesma distância de antes.

No início, tudo parecia mais simples. Havia um homem dizendo vir de Orionis, descrevendo um lugar impossível com uma serenidade difícil de explicar. Eu acreditava que bastaria o tempo para revelar alguma incoerência, alguma fissura capaz de transformar todo aquele mistério em algo compreensível.

Mas o tempo fez o contrário.

Quanto mais Elias fala, menos consigo encaixá lo em qualquer definição confortável.

Às vezes ele parece apenas um homem profundamente ferido. Alguém que atravessou dores tão intensas que precisou criar outro mundo para sobreviver dentro deste.

Isso faria sentido.

Talvez Orionis seja apenas uma forma simbólica de escapar da brutalidade humana. Uma construção delicada criada por uma mente cansada demais para continuar habitando a realidade como ela é.

Mas então existem os outros momentos.

Momentos em que ele fala das estrelas com precisão demais.
Momentos em que responde perguntas difíceis sem hesitação.
Momentos em que o silêncio ao redor dele parece mudar a própria atmosfera da sala.

E é isso que me assusta.

Não a possibilidade de ele estar delirando.

Mas a possibilidade de não estar.

Hoje fiquei observando Elias enquanto ele permanecia sentado perto da janela. Não dizia nada. Apenas acompanhava o movimento lento das nuvens no fim da tarde.

Havia uma tristeza silenciosa nele.

Não uma tristeza desesperada.

Algo mais antigo.

Como alguém que já viu coisas demais.

O Dr. Augusto continua tentando organizar tudo pela lógica clínica. Consigo perceber em suas perguntas a tentativa constante de encontrar uma origem psicológica para cada detalhe do discurso de Elias.

E talvez ele esteja certo.

Talvez exista um trauma profundo por trás de tudo isso.

Talvez Orionis seja apenas um nome bonito dado à dor.

Mas existe uma pergunta que não sai da minha mente.

Por que, mesmo diante da possibilidade de delírio, Elias transmite mais lucidez do que muitas pessoas perfeitamente consideradas normais?

Essa dúvida começou pequena.

Agora ela cresce em silêncio dentro de mim.

Porque já não sei mais o que seria mais fácil aceitar:

que Elias seja apenas um homem ferido…

ou que realmente exista algo nele que não pertence completamente a este mundo. 🌌

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