A Luz nas Estrelas – Capítulo 8

O Homem que Dizia Não Pertencer Aqui. Ele estava sentado no banco frio da rodoviária, como se aguardasse algo

A Luz nas Estrelas

Hoje a conversa tomou um caminho inesperadamente… cósmico.

Foi o Dr. Augusto quem conduziu.

Talvez, depois de não encontrar falhas na lógica de Elias, ele tenha decidido mudar o campo de análise. Se não podia quebrar o discurso por dentro, tentaria testá-lo por fora.

— Você mencionou Orionis como um lugar físico — disse o doutor. — Então vamos tratá-lo como tal. Descreva o sistema onde ele existe.

Elias pareceu confortável com a pergunta.

Mais do que isso… parecia familiar.

— Orionis orbita três sóis — respondeu.

O doutor ergueu levemente as sobrancelhas, mas não interrompeu.

— Um sistema triplamente estelar? — perguntou, já anotando.

— Sim. Mas não como vocês costumam imaginar.

Elias levantou-se lentamente e se aproximou da janela. O céu estava limpo, e algumas estrelas já começavam a surgir, mesmo antes do anoitecer completo.

— Dois dos sóis orbitam um ao outro — explicou ele — enquanto o terceiro se mantém em uma distância maior, mas ainda dentro do mesmo sistema gravitacional.

Dr. Augusto cruzou os braços.

— Isso geraria instabilidade orbital para qualquer planeta habitável.

Elias sorriu levemente.

— Geraria… se a órbita fosse fixa.

O doutor estreitou o olhar.

— Não é?

— Não da forma como vocês entendem.

Houve um breve silêncio.

— Continue — disse o médico.

Elias apoiou a mão no vidro da janela, como se pudesse tocar o que estava além.

— Orionis não segue uma órbita circular ou elíptica estável. Ele se move em um padrão adaptativo, ajustando-se às forças dos três sóis.

— Isso não é possível — respondeu o doutor, quase automaticamente.

Elias não se opôs.

— Ainda não é possível… para vocês.

Anotei essa frase com cuidado.

— E como isso afeta o planeta? — insistiu o médico.

Elias olhou para cima, como se estivesse vendo algo que nós não conseguimos.

— A luz nunca é a mesma.

— Como assim?

— Há dias em que os três sóis estão visíveis no céu. A luz se sobrepõe em camadas… criando tons que vocês não têm palavras para descrever.

Ele fez uma pequena pausa.

— E há momentos em que apenas um deles permanece. Nessas horas, a sombra ganha profundidade. Não é ausência de luz… é presença de contraste.

Senti um leve arrepio ao ouvir isso.

O Dr. Augusto, por outro lado, manteve o foco.

— E a noite?

Elias respondeu com naturalidade:

— Não é completamente escura.

— Por causa dos outros sóis?

— Em parte. Mas também porque o próprio céu reflete a luz de formas que vocês ainda não compreendem.

O médico anotava com rapidez agora.

— Reflexão atmosférica?

— Não apenas isso.

Elias se virou para ele.

— Em Orionis, a luz não é apenas algo que ilumina. É algo que se sente.

O silêncio que se seguiu foi diferente.

Não era desconforto.

Era… atenção.

Pela primeira vez, tive a impressão de que o Dr. Augusto não estava apenas analisando.

Ele estava imaginando.

Ao final da sessão, ele fechou o caderno com mais lentidão do que o habitual.

— Se o que você descreve fosse possível — disse ele — mudaria completamente nossa compreensão de sistemas estelares.

Elias assentiu.

— Muitas coisas mudariam.

Saí da sala com uma sensação estranha.

Não sei se Elias está descrevendo um lugar real.

Mas há algo que não consigo ignorar:

ele fala das estrelas…

como quem já esteve lá. 🌌

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