A Sociedade do Ego – Capítulo 12

O Homem que Dizia Não Pertencer Aqui. Ele estava sentado no banco frio da rodoviária, como se aguardasse algo

A Sociedade do Ego

Hoje Elias falou sobre algo que me deixou desconfortavelmente pensativa durante horas.

O assunto começou de forma simples.

Do lado de fora da clínica, algumas pessoas discutiam. Nada grave. Apenas pequenas disputas cotidianas, dessas que parecem surgir por qualquer motivo. Vozes alteradas. Necessidade de provar quem estava certo. Quem tinha razão. Quem possuía mais autoridade.

Elias observou tudo em silêncio.

Depois disse algo quase em tom de reflexão:

“Os humanos transformaram identidade em posição.”

Olhei para ele sem entender completamente.

Perguntei o que queria dizer.

Ele demorou alguns segundos antes de responder, como sempre faz quando procura traduzir pensamentos que parecem vir de muito longe.

“Grande parte de vocês não sabe quem é sem comparar a si mesmo com outra pessoa.”

Anotei imediatamente.

O Dr. Augusto, que também estava presente, cruzou os braços.

“Isso não é exatamente uma descoberta inédita”, comentou. “A sociedade humana sempre foi organizada em hierarquias.”

Elias assentiu com tranquilidade.

“Sim. Mas em Orionis aprendemos cedo que hierarquia não produz consciência. Apenas produz disputa.”

O doutor ergueu levemente as sobrancelhas.

“E como uma sociedade evolui sem competição?”

Elias voltou o olhar para ele.

“Vocês confundem crescimento com superioridade.”

O silêncio que surgiu depois daquela frase foi quase desconfortável.

Percebi que o médico preparava uma resposta racional, talvez até defensiva, mas Elias continuou antes.

“A maioria dos humanos constrói a própria identidade baseada no reconhecimento externo. Status. Poder. Acúmulo. Aprovação.”

Ele fez uma pausa breve.

“E quando tudo isso desaparece… muitos não sabem mais quem são.”

Senti algo estranho ao ouvir aquilo.

Talvez porque reconheci verdade demais nas palavras dele.

Vivemos cercados por símbolos de valor. Cargo. Aparência. Dinheiro. Influência. Seguidores. Como se a existência precisasse constantemente ser validada por algo externo para parecer real.

Perguntei então como isso funcionava em Orionis.

Elias sorriu de leve.

“Lá, ninguém precisa ser maior que o outro para sentir que existe.”

O Dr. Augusto soltou um pequeno suspiro, quase cético.

“Isso parece idealismo.”

“Talvez”, respondeu Elias. “Mas vocês chamam de idealismo tudo aquilo que ainda não conseguiram construir.”

Anotei essa frase com cuidado.

A conversa terminou pouco depois, mas algo permaneceu ecoando dentro de mim.

Talvez a humanidade tenha aprendido a desenvolver máquinas extraordinárias, cidades imensas e tecnologias impressionantes.

Mas ainda parece incapaz de responder uma pergunta muito mais simples:

quem somos quando ninguém está olhando? 🌌

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