O Retrato de Família – Capítulo 3

Série – A Casa das Vozes. Suspense psicológico e mistério sobre segredos enterrados em uma antiga casa de família

O Retrato de Família

O retrato estava na parede desde sempre.

Clara tinha certeza disso. Passara por ele dezenas de vezes, talvez centenas, sem realmente enxergar. Um quadro antigo, moldura de madeira escura, pendurado no fim do corredor, quase em frente ao quarto que ninguém mais usava. A imagem mostrava uma família alinhada em frente à antiga fachada da casa, todos sérios, todos imóveis, como exigia o costume da época.

Avô, avó, dois filhos, uma mulher ao fundo.

Ou pelo menos era assim que Clara se lembrava.

Naquela manhã, ao passar apressada rumo à cozinha, algo lhe causou um desconforto imediato, uma sensação breve e aguda de erro. Ela parou. Voltou dois passos. Encarou o retrato.

Havia um espaço vazio.

Não um vazio literal, mas uma ausência que gritava. Entre o avô e a mulher ao fundo, onde antes existia um rosto, agora havia apenas um contorno apagado, como se alguém tivesse sido cuidadosamente retirado da imagem. O fundo permanecia intacto. A roupa ainda estava lá. Mas o rosto não.

Era impossível. Fotografias não mudam. Rostos não desaparecem.

Clara se aproximou, o coração batendo mais rápido. Passou os dedos pela superfície do vidro, como se pudesse sentir alguma irregularidade. Nada. Nenhum rasgo. Nenhuma mancha. Apenas a certeza incômoda de que algo fora apagado sem deixar vestígios.

A sensação não era de susto. Era de invasão.

Como se a casa estivesse mexendo em coisas que não deveriam ser tocadas.

Ela tentou se lembrar de quem era aquela pessoa. Um tio. Uma tia. Alguém distante. Mas a memória falhava, escorregava, se recusava a formar imagem. Quanto mais tentava, mais um vazio se instalava, pesado, insistente.

A mulher ao fundo da fotografia parecia olhar direto para Clara.

Não era uma ilusão de ótica. Era um olhar fixo, profundo, quase acusador. Clara desviou os olhos, incomodada, sentindo um arrepio subir pela nuca. A casa estava silenciosa demais. Até os rangidos haviam cessado.

Era como se tudo aguardasse.

Naquele instante, Clara compreendeu algo que não queria admitir.

Os sons do corredor. As presenças invisíveis. Agora o retrato alterado. Nada daquilo era aleatório. A casa não estava apenas lembrando. Ela estava revelando.

E o que quer que tivesse sido apagado daquela fotografia, não havia sido esquecido.

Apenas escondido.

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