A Terapia Profunda

O Homem que Dizia Não Pertencer Aqui. Ele estava sentado no banco frio da rodoviária, como se aguardasse algo

A Terapia Profunda

Hoje foi a sessão mais intensa desde que Elias chegou.

O Dr. Augusto entrou na sala diferente.

Não havia em seu olhar o desejo de refutar Orionis, nem de encontrar contradições na história de Elias. Pela primeira vez, parecia interessado em compreender o homem antes do mistério.

Talvez tivesse percebido que, se existia uma resposta, ela estava escondida no passado.

Depois de alguns minutos de conversa, o médico fechou o caderno.

Era um gesto incomum.

Até então, ele registrava cada palavra.

Hoje preferiu apenas observar.

“Quero que esqueçamos Orionis por um momento”, disse calmamente. “Vamos falar apenas de você.”

Elias permaneceu em silêncio.

Seu rosto continuava sereno, mas havia algo diferente em sua respiração.

Mais lenta.

Mais profunda.

“O que você lembra antes de chegar aqui?”

A pergunta permaneceu suspensa na sala.

Elias fechou os olhos por alguns instantes.

Quando voltou a abri-los, parecia procurar alguma lembrança muito distante.

“Luz.”

Foi a única palavra.

“O que havia nessa luz?”, perguntou o médico.

Mais silêncio.

“Muitas vozes.”

“Você conseguia entendê-las?”

“Não com palavras.”

O Dr. Augusto manteve a voz baixa, quase acolhedora.

“E depois?”

Elias respirou profundamente.

“Silêncio.”

“Um silêncio tranquilo?”

Ele demorou alguns segundos.

“Não.”

Foi a primeira resposta carregada de emoção que ouvi desde o início de tudo.

“O que havia nesse silêncio?”

Os olhos de Elias perderam o foco por um instante.

Como se estivessem olhando para um lugar que nenhum de nós podia ver.

“Havia ausência.”

Senti um aperto no peito.

O doutor percebeu a mudança.

“Elias… ausência de quem?”

Ele não respondeu imediatamente.

As mãos, até então imóveis, fecharam-se lentamente sobre os próprios joelhos.

Pela primeira vez, seus dedos tremiam.

Muito pouco.

Mas tremiam.

“Você perdeu alguém?”

O silêncio voltou.

Longo.

Pesado.

Quase doloroso.

Então Elias levou uma das mãos até o peito, fechou os olhos novamente e respondeu em voz baixa.

“Perdi… um mundo.”

O Dr. Augusto permaneceu imóvel.

Não havia mais perguntas automáticas.

Apenas escuta.

“E como foi essa perda?”

Elias respirou fundo.

Sua expressão continuava tranquila, mas seus olhos revelavam algo que jamais haviam mostrado.

Saudade.

Uma saudade tão profunda que parecia atravessar toda a sua existência.

“Quando uma casa desaparece”, disse ele lentamente, “você continua caminhando… mas parte de você permanece esperando o caminho de volta.”

Nenhum de nós falou durante vários minutos.

A sala parecia menor.

O tempo parecia mais lento.

O médico que durante dias procurou sinais de delírio agora observava sinais de luto.

Mas de que luto?

Pela primeira vez, essa pergunta parecia mais importante do que descobrir se Orionis existia.

Antes de encerrar a sessão, o Dr. Augusto fez apenas uma última pergunta.

“Você sente falta de Orionis… ou de quem você era quando estava lá?”

Elias levantou lentamente o olhar.

Havia serenidade.

Mas havia também uma tristeza impossível de esconder.

“Às vezes”, respondeu ele, “essas duas coisas são a mesma.”

Saí da sala profundamente abalada.

Até hoje eu me perguntava se Elias era um homem que havia inventado Orionis.

Agora começo a considerar outra possibilidade.

Talvez Orionis seja real.

Ou talvez não.

Mas a saudade que Elias carrega…

essa é absolutamente verdadeira. 🌌

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