O Diário Onde Ele Escreve o Nome Dela – Capítulo 8

O Guardanapo da Primeira Confissão

O Diário Onde Ele Escreve o Nome Dela

Abro o caderno como quem abre um lugar que não deve ser invadido. As páginas ainda estão limpas, mas o que carrego não está. O nome Vera Lúcia já vive em mim antes de viver no papel. Ainda assim, escrevê-lo é diferente. É dar forma ao que até então era só silêncio interno.

Escrevo devagar. Não por hesitação, mas por respeito. Cada letra parece pedir cuidado, como se o próprio nome exigisse delicadeza. Quando termino, fico alguns segundos olhando. Não há mais nada na página. Apenas o nome dela. E, curiosamente, não falta nada.

Este diário nasce por causa dela. Não como fuga, não como excesso, mas como necessidade de organização da alma. Há sentimentos que não cabem em mensagens. Há pensamentos que não pedem resposta. Há saudades que não querem ser enviadas, apenas reconhecidas.

Escrevo sobre o dia. Sobre o que pensei. Sobre o que senti quando ouvi sua voz. Sobre o silêncio que veio depois. Escrevo o que não ouso dizer. Escrevo o que não precisa ser dito. Escrevo porque amar em silêncio também cansa, e o papel aceita tudo sem julgar.

Cada página se torna extensão da ausência. Não uma ausência amarga, mas uma ausência viva, pulsante, presente. Você não está aqui, mas tudo o que escrevo existe porque você existe. O diário não é sobre mim. É sobre o que você desperta.

Fecho o caderno com a sensação de que acabei de conversar com você sem usar palavras que pudessem ser lidas por mais ninguém.

Guardo o diário como quem guarda um segredo.
E durmo com a certeza de que amanhã haverá mais a escrever.

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