Um Mundo Sem Prisões – Capítulo 4

O Homem que Dizia Não Pertencer Aqui. Ele estava sentado no banco frio da rodoviária, como se aguardasse algo

Um Mundo Sem Prisões

Hoje a conversa com Elias tomou um rumo inesperado.

Eu havia passado boa parte da manhã organizando anotações sobre tudo o que ele já disse desde que chegou. Há algo curioso em suas histórias: nenhuma delas parece grandiosa demais. Ele nunca fala como alguém que deseja impressionar. Fala como quem descreve algo cotidiano.

Foi por isso que resolvi perguntar sobre como funciona a sociedade de Orionis.

— Como vocês lidam com crimes? — perguntei.

Elias inclinou a cabeça, como se a palavra tivesse chegado até ele com um leve atraso.

— Crimes?

Expliquei: violência, roubo, agressão, tudo aquilo que leva uma sociedade a criar leis e punições.

Ele ouviu atentamente, sem interromper.

Depois ficou alguns segundos em silêncio.

— Em Orionis — disse por fim — não existem prisões.

Achei que tivesse entendido errado.

— Nenhuma? — perguntei.

Ele apenas balançou a cabeça.

— Mas então… como vocês impedem que alguém prejudique outra pessoa?

Elias apoiou as mãos sobre a mesa e respondeu com a mesma serenidade de sempre.

— Nós não impedimos. Nós compreendemos.

Confesso que senti um desconforto imediato. Aquela resposta parecia simples demais para algo tão complexo.

— Aqui na Terra — continuei — acreditamos que sem leis e punições tudo viraria caos.

Ele sorriu, mas não de forma irônica. Era um sorriso calmo, quase compassivo.

— Vocês acreditam que o medo mantém a ordem.

— E não mantém?

Elias olhou pela janela antes de responder. A luz da tarde atravessava o vidro e desenhava sombras suaves no chão.

— O medo pode conter ações por um tempo — disse ele. — Mas nunca transforma consciência.

Anotei essa frase imediatamente.

Perguntei então o que acontece em Orionis quando alguém causa sofrimento a outro.

Ele pensou por um instante.

— Quando alguém fere outro ser, toda a comunidade participa do processo de compreensão.

— Compreensão?

— Sim. Buscamos entender a origem da dor que levou aquela pessoa a agir assim.

Eu franzi a testa.

— E se a pessoa não se arrepender?

Elias voltou o olhar para mim com uma tranquilidade que, de algum modo, tornava tudo ainda mais perturbador.

— Quando alguém é verdadeiramente compreendido, Vera… o arrependimento deixa de ser necessário.

Fiquei em silêncio.

Aqui na Terra, crescemos acreditando que a vigilância é inevitável. Câmeras, regras, punições. Como se a civilização dependesse permanentemente de suspeitar de si mesma.

Mas Elias fala de Orionis como se tudo fosse sustentado por algo diferente.

Consciência.

Talvez seja apenas uma utopia inventada por uma mente ferida.

Ou talvez seja algo mais inquietante.

Talvez exista, em algum lugar do universo — ou dentro de nós mesmos — uma forma de sociedade que não precisa vigiar ninguém.

E se isso for possível…

então o verdadeiro mistério não é Orionis.

É a humanidade. 🌌

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