Entre o Tempo e o Instante – Capítulo 27

Diário Secreto Para Vera

Entre o Tempo e o Instante

O desejo suspende as horas e eterniza o momento.

Não há ponteiro que avance quando a boca descobre o caminho da nuca. Não há calendário que se mantenha inteiro diante da promessa de um toque. O tempo, esse velho tirano que nos mede em anos e deveres, perde a régua e a razão quando o instante decide ser suficiente.

Era assim que ele se sentia agora: fora do tempo, dentro de um segundo que se recusava a morrer.

O relógio na parede marcava onze e vinte, ou seriam onze e vinte e três? mas os números haviam perdido o sentido. O que restava era apenas o agora: a textura da pele sob os dedos, o cheiro de chuva e alfazema, o som de uma respiração que se acelerava na cadência exata do seu peito.

Não vá, ela sussurrou, e naquela palavra havia a negação de todas as despedidas futuras.

Ele não respondeu. Respostas exigiam tempo, e ele não queria desperdiçar o instante com promessas que o amanhã poderia quebrar. Em vez disso, afundou os dedos na curva da sua cintura e puxou-a para mais perto, como se fosse possível desaparecer dentro de alguém, como se dois corpos pudessem se fundir num único ponto fora da linha cronológica.

O mundo lá fora continuava. Carros passavam. Pessoas envelheciam. Relógios marcavam horas que ninguém mais lembraria. Mas ali, naquele quarto de paredes caiadas e cortinas que não vedavam completamente a luz da lua, o tempo havia se curvado diante da intensidade do desejo.

Era um pacto silencioso: nada duraria, e por isso mesmo tudo era eterno.

Ele beijou a sua testa, depois as pálpebras, depois o canto da boca, cada gesto uma âncora no presente. Ela riu baixo, aquele riso que ele guardaria para sempre na dobra mais secreta da memória.

Se eu pudesse parar o agora, ele murmurou contra os seus lábios, pararia.

Não precisa, ela respondeu, os olhos brilhando na penumbra. O desejo já faz isso.

E era verdade. No espaço entre um batimento e outro, entre a inspiração e a expiração, o desejo construía sua própria eternidade. Não a eternidade dos deuses, infinita e cansativa. Mas a dos mortais que sabem que tudo acaba, e justamente por isso tornam cada segundo uma obra-prima.

Lá fora, o relógio finalmente avançou. Onze e vinte e quatro.

Ou talvez fosse meia-noite.

Ou talvez o tempo, enfim derrotado, tivesse desistido de marcar coisa alguma.

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