A História Fragmentada – 17

O Homem que Dizia Não Pertencer Aqui. Ele estava sentado no banco frio da rodoviária, como se aguardasse algo

A História Fragmentada

Hoje compreendi que a memória nem sempre se apresenta como uma linha contínua.

Às vezes ela chega em pedaços.

Como um espelho quebrado, onde cada fragmento reflete apenas uma parte da verdade.

O Dr. Augusto decidiu continuar a terapia iniciada ontem. A sala permanecia silenciosa. Não havia mais a ansiedade de provar nada. Apenas a delicada tentativa de alcançar um passado que parecia escondido atrás de uma porta entreaberta.

Elias entrou e sentou-se diante dele.

Seu semblante continuava sereno, mas seus olhos carregavam um cansaço que eu ainda não havia percebido.

O médico falou com voz tranquila.

“Hoje não quero que você explique Orionis. Quero apenas que me conte a primeira lembrança que surgir.”

Elias fechou os olhos.

Durante alguns segundos, pensei que permaneceria em silêncio.

Então falou.

“Corríamos.”

A resposta surpreendeu o doutor.

“Quem corria?”

“Todos.”

“O que estava acontecendo?”

As mãos de Elias apertaram discretamente os braços da cadeira.

“Não havia tempo.”

Sua respiração tornou-se mais pesada.

“O que vocês tentavam alcançar?”

Ele balançou a cabeça lentamente.

“Não era para alcançar.”

Fez uma pausa.

“Era para escapar.”

Senti um frio percorrer minhas costas.

Pela primeira vez, Orionis deixava de ser apenas um lugar de paz.

Havia medo em suas lembranças.

Dr. Augusto manteve o tom sereno.

“Escapar de quê?”

O silêncio voltou.

Muito mais longo desta vez.

Quando Elias respondeu, sua voz parecia distante.

“Daquilo que também destrói mundos.”

O médico permaneceu imóvel.

“E o que destrói mundos?”

Os olhos de Elias abriram-se lentamente.

“O mesmo que destrói famílias.”

Outra pausa.

“O mesmo que destrói nações.”

Seu olhar parecia atravessar a sala.

“O mesmo que destrói pessoas por dentro.”

Ninguém falou.

Não era preciso.

Aquelas palavras carregavam um peso que nenhuma explicação conseguiria aliviar.

Alguns minutos depois, uma nova lembrança surgiu.

“Inclinei-me sobre alguém.”

O doutor perguntou com delicadeza.

“Quem era?”

Elias respirou profundamente.

“Não consigo ver o rosto.”

“E essa pessoa estava viva?”

Os olhos de Elias se encheram de um brilho discreto.

Talvez fossem lágrimas.

Talvez apenas a luz da janela.

“Quando cheguei… já não.”

Meu coração apertou.

Nunca imaginei que o homem que falava com tanta tranquilidade pudesse guardar uma dor tão profunda.

A sessão prosseguiu em silêncio durante alguns minutos.

Então outra imagem apareceu.

“Duas crianças.”

O médico anotou.

“O que elas faziam?”

“Eram levadas.”

“Para onde?”

“Não sei.”

Sua voz começou a falhar pela primeira vez.

“Eu queria alcançá-las.”

“Você conseguiu?”

Elias respondeu quase em um sussurro.

“Não.”

O silêncio tornou-se insuportável.

O Dr. Augusto fechou lentamente o caderno.

Não havia mais perguntas.

Naquele momento, compreendeu que insistir seria abrir uma ferida antes do tempo.

Quando a sessão terminou, Elias permaneceu alguns instantes olhando pela janela.

O sol começava a desaparecer no horizonte.

As sombras cresciam lentamente sobre a cidade.

Antes de sair, ele falou algo que nenhum de nós esperava.

“As pessoas acreditam que a violência começa quando alguém levanta uma arma.”

Voltou-se para nós.

“Ela começa muito antes.”

“Onde?” perguntei.

Ele respondeu com a voz mais triste que já ouvi.

“No instante em que deixamos de reconhecer o outro como parte de nós.”

Passei o restante do dia pensando nessa frase.

Até agora eu acreditava que a maior pergunta desta história era descobrir de onde Elias veio.

Hoje percebo que talvez exista uma pergunta muito mais importante.

O que aconteceu para que um homem capaz de falar tanto sobre esperança carregue dentro de si lembranças tão profundas de perda, violência e dor?

Talvez a resposta esteja começando a aparecer.

Não inteira.

Apenas em fragmentos.

E, curiosamente, são justamente esses fragmentos que tornam Elias cada vez mais humano.

Ou talvez…

algo ainda maior do que isso. 🌌

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