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Naquela noite, o céu parecia diferente.
Talvez não estivesse.
Talvez fosse apenas eu quem estivesse olhando de outra maneira.
Depois de tudo o que havia acontecido nas últimas semanas, comecei a perceber que algumas coisas mudam não porque o mundo se transforma, mas porque nós já não somos exatamente os mesmos diante dele.
Elias estava sentado sozinho no jardim.
Era tarde. O movimento havia diminuído e o silêncio tomava conta do lugar. Acima de nós, as estrelas apareciam entre pequenos espaços de nuvens, como pontos de luz espalhados por uma imensidão que nenhum de nós poderia compreender completamente.
Aproximei-me devagar.
Ele não percebeu minha presença imediatamente.
Ou talvez tivesse percebido e simplesmente não quisesse interromper o que estava fazendo.
Olhava para o céu com uma atenção quase absoluta.
Não era o olhar de alguém admirando uma paisagem.
Era diferente.
Parecia reconhecimento.
Sentei-me ao seu lado.
Por alguns minutos, nenhum de nós disse nada.
Foi Elias quem quebrou o silêncio.
“Quando eu era criança, acreditava que as estrelas eram portas.”
Sorri.
“E agora?”
Ele continuou olhando para cima.
“Agora sei que são muito mais do que isso.”
“Mais do que portas?”
“Sim.”
Fez uma pequena pausa.
“São lembranças.”
Fiquei em silêncio.
Não sabia exatamente o que ele queria dizer.
“Você sente falta de Orionis quando olha para o céu?”
Dessa vez, ele demorou a responder.
“Todos os dias.”
Havia algo diferente em sua voz.
Não era tristeza.
Também não era exatamente saudade.
Era como se ele estivesse descrevendo uma ausência que já fazia parte de sua própria existência.
“Você pretende voltar?”
Ele respirou profundamente.
“Sim.”
A resposta veio simples.
Sem hesitação.
Sem dramatização.
Olhei para ele.
“Voltar para Orionis?”
“É.”
“Como?”
Elias permaneceu alguns segundos em silêncio.
“Essa é uma pergunta que vocês fazem porque acreditam que todo retorno precisa acontecer pelo mesmo caminho da partida.”
Não entendi completamente.
“E não precisa?”
“Nem sempre.”
Ele apontou para o céu.
“Quando alguém parte de um lugar, vocês imaginam que precisa atravessar novamente o espaço que percorreu. Mas existem distâncias que não são medidas em quilômetros.”
Olhei para as estrelas.
“Você está dizendo que pode voltar sem viajar?”
“Estou dizendo que talvez a viagem mais longa seja aquela que acontece dentro de nós.”
Fiquei pensando naquela frase.
Elias continuou:
“Vocês passam a vida tentando chegar a lugares. Mudam de cidade, atravessam países, cruzam oceanos, exploram outros mundos. Mas quase nunca perguntam para onde estão indo dentro de si mesmos.”
O vento passou suavemente pelas árvores.
Por um instante, senti que o jardim inteiro parecia suspenso no tempo.
“Então Orionis pode estar dentro de você?”
Ele sorriu.
“Talvez.”
“Ou talvez esteja em algum lugar muito distante.”
“Também.”
Aquela resposta me incomodou.
Não porque fosse incompreensível.
Mas porque deixava todas as possibilidades abertas.
“Você nunca vai me dizer o que Orionis realmente é?”
Elias olhou para mim.
“Talvez eu já tenha dito.”
“Quando?”
“Todas as vezes em que você pensou que eu estava falando apenas de um planeta.”
Fiquei olhando para ele.
Havia naquele homem uma maneira incomum de responder. Ele nunca fechava uma porta completamente. Também nunca abria uma o suficiente para que pudéssemos atravessá-la.
Era como se estivesse sempre nos deixando diante da escolha.
Acreditar.
Duvidar.
Ou simplesmente continuar procurando.
“Você tem medo de não conseguir voltar?”
Pela primeira vez naquela noite, Elias desviou os olhos do céu.
“Tenho.”
A resposta me surpreendeu.
“Você tem medo?”
“Tenho.”
“De quê?”
Ele voltou a olhar para as estrelas.
“De voltar e descobrir que aquilo que eu lembrava não existe mais.”
Aquela frase permaneceu entre nós.
Talvez porque fosse muito mais humana do que todas as coisas extraordinárias que ele havia contado.
Todos nós conhecemos esse medo.
O medo de retornar a algum lugar e descobrir que ele já não existe como existia dentro da nossa memória.
Uma casa pode permanecer de pé e, ainda assim, deixar de ser nossa casa.
Uma cidade pode continuar no mesmo lugar e parecer estranha.
Uma pessoa pode permanecer viva e, mesmo assim, já não ser aquela que guardávamos na lembrança.
Talvez retornar seja também aceitar que o lugar para o qual desejamos voltar pode ter mudado.
Ou talvez sejamos nós que mudamos.
“E se você não puder voltar?”, perguntei.
Elias ficou em silêncio.
Depois respondeu:
“Então precisarei aprender a viver com a distância.”
“E isso é possível?”
Ele olhou para mim.
“É o que todos vocês fazem.”
Não consegui responder.
Ele tinha razão.
A humanidade inteira parecia viver cercada por ausências.
Pessoas que partiram.
Sonhos que não aconteceram.
Amores que terminaram.
Lugares que desapareceram.
Versões de nós mesmos que ficaram presas em algum momento do passado.
Talvez todos nós estivéssemos tentando voltar para algum lugar.
Um tempo.
Uma pessoa.
Uma sensação.
Uma inocência.
Uma casa.
Uma parte de nós mesmos.
E talvez fosse justamente isso que Elias chamava de retorno.
Ficamos ali durante muito tempo.
As estrelas continuavam brilhando acima de nós, indiferentes às nossas perguntas.
Então Elias disse:
“Vera, vocês olham para o céu procurando respostas.”
“E não deveríamos?”
“Deveriam.”
Ele sorriu.
“Mas também deveriam observar o que acontece dentro de vocês enquanto procuram.”
Naquele momento, compreendi que talvez o mistério de Elias nunca tivesse sido apenas descobrir de onde ele veio.
Talvez a verdadeira pergunta fosse outra.
Por que a história daquele homem despertava em nós uma necessidade tão profunda de acreditar que existe algum lugar para onde podemos retornar?
Ele continuou olhando para o céu.
Eu também.
E por alguns minutos tive a estranha sensação de que as estrelas estavam muito mais próximas.
Não porque tivessem se aproximado.
Mas porque, pela primeira vez, eu não as olhava apenas como objetos distantes.
Eu as olhava como possibilidades.
Elias permaneceu em silêncio.
Até que, quase num sussurro, disse:
“Está chegando.”
Olhei para ele.
“Está chegando o quê?”
Ele não respondeu imediatamente.
Seus olhos continuavam fixos no céu.
“Meu retorno.”
Naquela noite, pela primeira vez, senti que Elias não estava falando apenas de um desejo.
Estava falando de uma certeza.
E, olhando para aquelas estrelas silenciosas, comecei a me perguntar se o retorno de Elias seria realmente uma viagem.
Ou se ele estava apenas esperando o momento certo para deixar de ser aquilo que nós acreditávamos conhecer.
Talvez algumas partidas comecem muito antes de alguém desaparecer.
Talvez comecem no instante em que a pessoa já sabe que não permanecerá para sempre.
“As informações apresentadas neste site têm caráter estritamente informativo, com o propósito de ampliar o conhecimento sobre uma variedade de temas, incluindo saúde e alimentação. Os dados nutricionais e as declarações contidas aqui são voltados para fins educativos e de pesquisa, sempre com embasamento em fontes especializadas em cada área. No entanto, essas informações não substituem a orientação direta de profissionais de saúde ou nutricionistas. Se você tiver dúvidas ou preocupações sobre sua saúde ou alimentação, recomendamos que consulte um médico ou nutricionista qualificado.”
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