A Fera Ferida – 16

O Primeiro Olhar na Escuridão. Talvez porque essas coisas nunca anunciam a própria chegada. Elas apenas… acontecem.

A Fera Ferida

Ela não mostrava a dor com facilidade.

Não porque não sentisse.

Sentia profundamente.

Talvez até mais do que deixava transparecer.

Mas havia aprendido, ao longo do tempo, que nem todos que perguntam o que aconteceu realmente estão preparados para ouvir a resposta. Algumas pessoas perguntam apenas por curiosidade. Outras se aproximam apenas o suficiente para assistir à queda.

Por isso, quando algo a feria, seu primeiro impulso não era correr em busca de alguém.

Era se recolher.

Como uma felina ferida que procura um lugar silencioso antes de permitir que alguém se aproxime, ela precisava de distância para compreender o que estava sentindo.

O mundo continuava girando.

As pessoas continuavam falando, sorrindo, vivendo seus próprios problemas.

Mas dentro dela havia algo quebrado.

E, por alguns dias, ninguém percebeu.

Ela continuava respondendo quando precisava. Cumpria seus compromissos. Mantinha a postura. À primeira vista, parecia a mesma.

Mas não era.

Havia menos luz em seus olhos.

Menos vontade de falar.

Menos espaço para o mundo.

A dor emocional não a transformava em alguém desesperada. Não fazia com que implorasse explicações ou perseguisse respostas que o outro não queria oferecer.

Ela sofria.

Mas sofria em silêncio.

Não porque acreditasse que sentir fosse fraqueza, mas porque sabia que algumas dores precisam primeiro encontrar um lugar dentro de nós antes de poderem ser compartilhadas.

Nos primeiros dias, ela queria entender.

Repassava palavras, olhares, promessas. Tentava descobrir em que momento algo havia mudado. Procurava sinais que talvez tivesse ignorado.

Depois, veio a raiva.

Uma raiva silenciosa.

Não aquela que destrói tudo ao redor, mas aquela que nasce quando finalmente percebemos que permitimos demais.

Ela sentiu vontade de voltar.

De perguntar.

De exigir.

De dizer tudo aquilo que havia guardado.

Mas não fez.

Sentou-se sozinha e deixou que a tempestade passasse por dentro dela.

E foi justamente ali que começou a se transformar.

Porque, quando a dor não é usada para implorar amor, ela pode se tornar consciência.

Pouco a pouco, ela percebeu que não precisava de todas as respostas.

Nem sempre quem nos machuca consegue explicar o que fez.

Nem sempre haverá um pedido de desculpas.

Nem sempre haverá arrependimento.

Esperar por isso seria continuar entregando ao outro o poder de decidir quando sua dor terminaria.

E ela já havia entregado demais.

Então começou a voltar para si.

Devagar.

Voltou aos lugares onde se sentia bem. Reencontrou pequenos hábitos que havia abandonado. Passou mais tempo em silêncio, não para fugir do mundo, mas para ouvir novamente a própria voz.

Cada dia trazia uma pequena parte dela de volta.

Não era a mesma mulher.

A dor havia deixado marcas.

Mas as marcas não a diminuíam.

Lembravam-lhe que havia sobrevivido.

Certa noite, enquanto observava seu próprio reflexo na janela escura, ela percebeu algo que não via havia muito tempo.

Seus olhos ainda estavam ali.

Talvez mais atentos.

Talvez mais cautelosos.

Mas vivos.

Ela sorriu.

Não porque a dor tivesse desaparecido completamente, mas porque finalmente entendeu que sobreviver a uma ferida não significa fingir que ela nunca existiu.

Significa aprender a viver sem permitir que ela controle todos os próximos passos.

Ela não se tornou fria.

Não fechou o coração.

Não decidiu que nunca mais confiaria em ninguém.

Apenas aprendeu a se aproximar de forma diferente.

Agora observava mais.

Escutava mais o próprio instinto.

E, principalmente, sabia quando era hora de se afastar.

Porque uma fera ferida pode se esconder por algum tempo.

Pode permanecer em silêncio.

Pode parecer frágil para quem observa de longe.

Mas existe algo que muitos esquecem.

Feridas cicatrizam.

E quando ela finalmente saiu da escuridão, não voltou procurando vingança.

Voltou diferente.

Mais consciente.

Mais inteira.

Mais dona de si.

A dor não havia conseguido domesticá-la.

Apenas a lembrou de que até as criaturas mais fortes precisam se recolher para curar.

E quando voltou a caminhar pelo próprio território, seus passos ainda eram suaves.

Mas suas garras já sabiam exatamente quando aparecer.

Porque uma mulher felina também sofre.

Também chora.

Também se quebra.

A diferença é que, quando chega o momento de se levantar, ela não volta para ser a mesma.

Ela volta sabendo que sobreviveu àquilo que tentou feri-la.

E, depois disso, ninguém consegue convencê-la de que é fraca. 🐾

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